Chapada
dos Guimarães
Texto de Stela Moura
FOTOS
A
Chapada dos Guimarães, no Planalto Central, já foi cantada, fotografada,
explorada e
em grande parte, vendida. Alguns tentam preservá-la, outros cercá-la
e loteá-la. Sem tomar
partido quanto aos vários objetivos pessoais, acima de tudo a Chapada
é para ser sentida.
Durante alguns anos, "subir" para a Chapada, significava para mim um
encontro com os
amigos, comigo mesma, ou mesmo um momento de permitir me perder por
suas trilhas.
A Chapada dos cartões postais, é
só a imagem que se vende ao turista urbano e
desavisado. Aquele que traz seu ritmo e não consegue entender que o
tempo por lá corre
diferente. Na Chapada, o tempo não é o do relógio de pulso, mas o da
ampulheta, ou do
relógio à corda na algibeira, consultado sem nenhuma pressa ou agitação.
A Chapada não
é para ser apenas vista, é para ser contemplada, respirada, ouvida e
bebida, pois ela é
uma festa para os sentidos.
Suas maiores riquezas não estão
nem claras e muito menos explícitas. Estão
guardadas, ocultas em transparências e luzes, cores e perfumes, de uma
sutileza tal,
que apenas quem se abandona ao seu ritmo pode perceber. Depois de espanar
o pó da
cidade nos banhos de cachoeiras, é claro.
Na Chapada dos Guimarães é preciso
garimpar para se encontrar alguma coisa de valor.
O garimpo da metáfora, das descobertas das sutilezas da região. Não
basta simplesmente
procurá-las, pois elas não se apresentam a quem quer, elas precisam
ser desvendadas.
Há beleza nos nomes indígenas de suas cachoeiras e arredores, nas cavernas
isoladas e
deslumbrantes, nos difíceis acessos às suas nascentes e pinturas rupestres,
nos riachos
cristalinos e cheios de pedras redondas e com limo, bem longe de qualquer
estrada de
acesso. Nas flores únicas do Cerrado, como este Pepalantus, tão passageiras,
tão frágeis
e justamente, por isso, tão preciosas.
Na Chapada dos Guimarães, atmosfera
é uma palavra para ainda ser escrita com ph,
para combinar com o cheiro do fogão de lenha e com o barulho dos grilos
nas noites de
neblina ou quando o céu está aberto e quase "claro" de tantas estrelas.
E os crepúsculos? A natureza é caprichosa
e ao final de cada dia prepara algo diferente
e deslumbrante , é só estando lá para ver. Por do sol policromático,
para ser admirado
sozinho ou bem acompanhado, mas de preferência, em silêncio.
"Ora direis, ouvir estrelas", pois
lá na Chapada tem gente que garante que dá para ouvir,
mas só em noites tão escuras, quem nem curiango "avoa". Sentar à beira
de uma fogueira,
em um dos vários refúgios silvestres, perto do mirante ou paredão, pra
ficar ouvindo os
"causos" da região já valeria a viagem, pois as pessoas da Chapada são
um caso à parte.
Nadar nas águas transparentes da
lagoa azul da caverna Aroe Jari, ou um banho
"bem gelado" em uma de suas cachoeiras ou "desanuvia" a alma, ou desenferruja
o corpo
ou liberta o espírito para as várias dimensões e possibilidades da vida.
Não faltam escolhas
para todos os gostos, desde que é claro, você leve na sua bagagem seu
melhor humor, a
sua mais caprichada disposição e a mais completa tradução da palavra
simplicidade.
Só assim para poder ficar preparado para se deixar encantar com cada
nova descoberta.
A Chapada, como já disse Caetano,
está " em um ponto equidistante entre o Atlântico
e o Pacífico", é o marco geodésico da América do Sul, e quem a conhece
também vai
estabelecer um marco na sua vida, pois passa pensar em sua vida sempre
como:
AC(antes da Chapada) ou DC (depois da Chapada).
* Este texto foi uma tentativa de
aliviar a saudade do Tarujampim, do Jamacá,
da Eliana, Rogério, Bené, Jorge, e de todos os amigos que desfrutam
deste espaço com
amor e proteção e que conservam ainda um olhar de espanto diante da
beleza cotidiana.
Créditos
das fotos
As fotos "Angico e o por do sol" e "Por do sol Chapada" são de Rogério
Andrade Jr. /
Chapada dos Guimarães/MT São Jeronimo, Mário Friedlander/ Chapada dos
Guimarães/MT
Pepalantus é um desenho de Romulo Andrade, artista plástico paulistano
radicado em
Brasília e participante do Movimento Artistas pela Natureza.
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