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Chuí

O fim do Brasil

Texto e fotos de Levis Litz

      Quando estávamos viajando de motocicleta em direção ao Uruguai, pela costa, encontramos a Barra do Chuí. Valesca e eu chegamos às quatro horas da tarde. Ainda tínhamos muitas horas de sol, ou melhor, da luz do dia, pois o tempo estava muito nublado.

      O início de nossas férias não tinha sido dos melhores para nós e para aquela região. As tradicionais chuvas de verão chegaram com uma intensidade fora do comum. O frio inesperado e as chuvas fortes, apesar de fazer alguns estragos no plano de viagem, não esfriaram o nosso ânimo para visitar os recantos da região, principalmente conhecer a última praia do Brasil.

                                                         Arroio Chuí

      Uma cabana com o formato de um pequeno chalé no camping Alvorada serviu para nos instalarmos. O preço era bem acessível, apenas oito dólares por dia. Deixamos nossos apetrechos ali e fomos para a praia ver onde termina - ou começa - o nosso país.

      O Arroio Chuí - um marco do limite da cidadania brasileira - separa o Brasil do Uruguai. De cada lado existem molhes e do nosso lado tem um belo farol - o último sentinela brasileiro, de 30 metros de altura, construído em 1910.

      A cidade brasileira do Chuí, a cerca de 14 quilômetros da praia, é um distrito de Santa Vitória do Palmar. O comércio é um ótimo atrativo para os 1.500 imigrantes palestinos que fazem parte dos sete mil habitantes locais. É o acesso turístico terrestre mais movimentado do país. Apenas uma avenida separa o Chuí da cidade uruguaia Chuy.

      Atualmente, as relações entre Uruguai e Brasil são boas, mas durante o século XVIII e parte do seguinte, essa região tinha sido palco de guerra entre portugueses e espanhóis.

                                                   Notícias nada boas

      Pela rádio bilingüe - português e espanhol - soubemos que El Niño estava na cidade e que estava atrapalhando uma festa típica no lado uruguaio. Uma frente fria chegou do Uruguai e o vento estava acima dos 50 km/h. Pouco depois, escutei um estrondo lá fora, bem pertinho da porta. Saio e vejo algumas barracas que tremulavam ao vento parecendo bandeiras e bem próximo de mim, também vejo a minha motocicleta virada no chão.

      A chuva intensa me atrapalhou e com certa dificuldade consegui levantar a moto. Ao me virar a placa acabou fazendo um pequeno corte na perna direita, nada sério, mas doía muito devido ao frio de congelar os ossos. Coloquei a moto da maneira mais segura, ao lado da porta, caso ela virasse novamente, seria apoiada pela parede.

     Permaneci do lado de fora pouco tempo, mas foi o suficiente para que ficasse molhado por inteiro. Ao me recolher, quase que não consigo fechar a porta devido a força do vento.

     No rádio, não tinham a previsão de quantos dias o tempo continuaria assim. Quando tudo fica cinza, a tendência é que seus planos também percam a cor. O único problema era o nosso tempo de permanência que se esgotava. Logo teríamos que partir. A nossa intenção era ir até Montevidéu, mas era tarde demais, a rádio acabava de avisar que certos trechos de acesso estavam interditados e inundados. Mesmo assim, decididos a encarar a chuva de frente, montamos na motocicleta e partimos para conhecer em apenas um dia, os 110 quilômetros da costa do Uruguai até a Reserva de Cabo Polonio. Estávamos determinados para ver os lobos marinhos.












 


                                                                       Um amanhecer dourado

     Os primeiros tímidos raios de sol no tanque da motocicleta indicavam que era hora de deixar aquelas paragens da última praia do Brasil. Estávamos animados com a idéia da partida e nossos pensamentos se voltavam para o seco aconchego do lar, a 1227 quilômetros de distância - Curitiba.