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Curitiba Viável ao Turismo

Por Elizabeth Cavalcanti e Maria Fernanda Neves

Curitiba
A grande campeã em qualidade de vida

      O Visitante que sobrevoa Curitiba, luminosa nesta época do ano sob o sol de outono, surpreende-se com o cinturão verde que
cerca a cidade. Lá embaixo estão os 26 parques e bosques que dão a 1,6 milhão de curitibanos um total de 55 metros quadrados
de área verde por habitante - três vezes superior ao índice considerado ideal pelas Nações Unidas. Uma construção em semicírculo
nos tons ocre e terracota, com duas torres refletidas num espelho d'água, chama a atenção. Ali está o portão de entrada do Parque
Tanguá, um reduto de 450.000 metros quadrados formado por um lago, pista de cooper, ciclovia, mirante, cascata e gramados bem
cuidados que delimitam uma área coberta por bosques. Remanescentes da Mata Atlântica, eles estão pontilhados pelo lilás e rosa
dos manacás floridos e pelo verde-escuro das araucárias - espécie de pinheiro típica do Paraná.

      O parque, construído há três anos onde antes havia duas pedreiras desativadas, é um dos muitos exemplos de como os
curitibanos conseguiram converter áreas ambientalmente degradadas em espaços em que se pode caminhar, assistir a shows de
música, passear ou simplesmente namorar. Que a cidade se tornou nos últimos tempos uma espécie de campeã brasileira do
bem-viver não é novidade nenhuma. O próprio Banco Mundial identificou Curitiba como a capital que oferece a seus moradores a
melhor qualidade de vida no país. Mais recente, porém, é a percepção de que essa característica vem se revelando um diferencial
estratégico na hora de atrair investimentos para a cidade. Para um número crescente de investidores, esse é um quesito muito
importante como a logística de distribuição, a infra-estrutura disponível e a qualificação da mão-de-obra local. "Qualidade de vida é
fundamental", diz o arquiteto Jaime Lerner, três vezes prefeito de Curitiba e hoje cumprindo seu segundo mandato de governador do
Paraná. "É isso o que faz toda a diferença na criação de um bom ambiente para os negócios.

      " Tome-se o caso do gaúcho Sandro Nunes Henrique e um grupo de seis colegas que há nove anos decidiram deixar o trabalho
de analistas de sistemas do Banco do Brasil, em Brasília, para criar a própria empresa. Para o tipo de negócio que pretendiam
montar - uma prestadora de serviços de tecnologia em que a Internet seria ferramenta básica - , não importava muito a localização
geográfica. Estratégico para Sandro e seus amigos era poder contar com ar puro, boa metragem de área verde e parques para
caminhar. Essencial era estar num lugar onde o custo de vida fosse mais baixo do que São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília. Onde
o tempo de deslocamento nas ruas da cidade fosse razoável. Queriam estar numa cidade com boas escolas, dotada de rede
hospitalar eficiente e opções de lazer variadas.

      Foi a soma de todas essas exigências que convenceu Sandro e os amigos a estabelecer a Conectiva em Curitiba. De lá para
cá, a empresa se tornou uma das cinco maiores distribuidoras no mundo do sistema operacional Linux, aquele programa básico de
computador sem o qual nenhum outro funciona. Com filiais na Cidade do México, Bogotá e Buenos Aires, e escritórios no Rio, em
São Paulo e em Brasília, a Conectiva teve um crescimento anual médio de 360% nos últimos três anos. O faturamento da empresa,
que atua também na área de desenvolvimento de software, consultoria e treinamento, deve saltar este para 12 milhões de dólares,
três vezes mais do que o obtido em 1999.

      Para Sandro, parte desse sucesso deve-se ao simples fato de estar localizada em Curitiba. A razão? "Uma cidade eficiente
acaba refletindo em custos menores na hora de contratar funcionários, alugar imóveis ou negociar serviços", diz. "Hoje nossos
custos fixos são 30% mais baixos do que se estivéssemos operando em São Paulo ou no Rio." Dos 220 funcionários da Conectiva,
cerca de 10% foram recrutados em países como Estados Unidos, Holanda, Alemanha e Argentina. "Na hora de buscar essas
pessoas, facilita muito saber que vão viver aqui", diz Sandro.

      O que é mesmo que Curitiba tem de tão especial? Imagine uma cidade com apenas 500.000 habitantes no início da década de
70. Hoje, com mais do que o triplo na capital e outros 800.000 habitantes espalhados pelos 24 municípios de sua região
metropolitana, ela constitui o melhor exemplo de como uma cidade brasileira pode crescer sem perder o prumo. Uma cidade cujo
modelo de planejamento, secundado por um eficiente sistema de transporte público, com suas estações-tubo e ônibus "ligeirinhos",
fez de Lerner, o seu criador, uma personalidade respeitada em todo o mundo.

      As inovações que mudaram a cara de Curitiba viraram referência em livros de urbanismo, tese de doutorado em universidades
americanas e um exemplo que atrai à cidade romaria de especialistas interessados em copiar o modelo. Em junho próximo, a
prefeitura de Los Angeles deve implantar um sistema de linhas de ônibus inspirado nas rotas expressas de Curitiba. O objetivo é
desobstruir o enfartado trânsito da cidade, que possui uma frota de 2 milhões de veículos. "Ao contrário de cidades que vivem de
espasmos de boas idéias, Curitiba fez da continuidade a espinha dorsal de seu desenvolvimento", diz o publicitário Sérgio Reis,
que vive na cidade. "Tivemos também a sorte de não ter encontrado um Brizola ou um Pitta pelo caminho."

      O atual prefeito é Cassio Taniguchi, engenheiro eletrônico formado pelo Ita e ex-secretário estadual de Planejamento na
primeira gestão de Lerner. "O segredo de Curitiba é que ela sempre procurou se adiantar ao futuro", diz, ele, que é tido como o
principal executor das idéias que mudaram as feições da cidade.

      Quem vê Curitiba do alto percebe aqui e ali a terra vermelha removida por escavadeiras que preparam o terreno para receber
uma nova construção. Em meios aos novos prédios de apartamentos e condomínios residenciais que se espalham pela região,
vêem-se as moderníssimas instalações de algumas fábricas construídas ali nos últimos anos. De 1996 para cá, a região
metropolitana de Curitiba atraiu 8 dos 12 bilhões de reais investidos no estado por intermédio do programa de incentivos fiscais
Paraná Mais Emprego. Boa parte desses investimentos foi feita pelas montadoras de carros que nos últimos dois anos
transformaram a região no segundo maior pólo automobilístico do país, atrás apenas do existente no ABC, em São Paulo.

      Primeiro vieram a Renault, a Volkswagen-Audi e a Chrysler, que instalaram suas linhas de montagem nos municípios de São
José dos Pinhais e de Campo Largo, a 40 minutos do centro de Curitiba. Depois, no seu rastro, chegaram dezenas
de fornecedores. São fabricantes de embreagens, direção hidráulica, painéis, rodas, bancos, motores e outros componentes. É o
caso, por exemplo, da Dana, que produz chassis para a Chrysler; da Tritec, uma associação entre a Daimler-Chrysler e a BMW; e
da Mecânica Mercosul, que produz motores para a Renault dentro do complexo industrial batizado de Ayrton Sena, onde são
fabricados os modelos Scénic e Clio II.

      Além das montadoras, que estão gerando cerca de 6.000 empregos diretos na região, muitas outras indústrias estão fincando
ali seus logotipos. Elas vão desde a Companhia Siderúrgica Nacional, que acaba de inaugurar uma unidade de produção de aço
galvanizado para uso na construção civil, passando pela francesa Soditech, que desenvolve sistemas de ponta para as indústrias
aeronáutica, espacial e automotiva, até a americana Lucent Technologies, que fabrica sistemas de energia para telecomunicações
em associação com a Inepar - um dos maiores grupos privados do Paraná, comandado pelo empresário Atilano de Oms Sobrinho.

      Um dos motivos pelo qual todas essas empresas estão tomando o rumo de Curitiba, é que a cidade está a pouco mais de 4
horas do maior mercado consumidor do país. São 408 quilômetros até São Paulo, um trecho mais curto do que o que separa
cidades do interior paulista, como São José do Rio Preto, da capital do Estado. Florianópolis, a terceira colocada, está a 705
quilômetros de São Paulo e Porto Alegre, a vice-campeã, a 1.109 quilômetros. Para os curitibanos acostumados a enfrentar o
trânsito pesado da Régis Bittencourt, que liga a cidade a São Paulo uma boa notícia, enfim. As obras de duplicação da "Rodovia da
Morte", assim chamada por causa de seu recorde macabro de acidentes, devem estar concluídas o final do ano.

      Junto com Brasília, Curitiba foi a cidade que mais cresceu nos anos 90. De 1991 até o final do ano passado, o crescimento
médio da população foi de 2,6% ao ano. Curitiba tem um potencial de consumo de 7,5 bilhões de dólares, contra 6,9 bilhões de
Porto Alegre. Proporcionalmente ao número de habitantes, o volume de dinheiro disponível para consumo é superior ao de São
Paulo, estimado em 42,7 bilhões de dólares, o maior do país. O consumo per capita do curitibano é de 4.768 dólares por ano
contra 4.293 dólares do paulistano. Já a média nacional, reduzida em virtude da desvalorização do real no início do ano passado,
anda por volta de 2.800 dólares.

      Tal como ocorre com Porto Alegre e Florianópolis, a maior parte dos domicílios de Curitiba - cerca de 42% do total - concentra-
se nas classes A e B. Já nas D e E estão apenas 22,9% das residências. Compare esses resultados com Recife, a 24ª colocada
na lista das melhores cidades para os negócios. Ali, a proporção é inversa. Só 17,1% dos domicílios da capital pernambucana
representam as classes A e B. A maior parte deles, exatos 52,8% do total, pertence às classes D e E.

      Não é á toa que uma série de novos negócios vem abrindo as portas na cidade atrás dessa massa de consumidores. Com a
chegada das montadoras e das cidades que vieram a reboque, o comércio e os serviços sofreram um grande empurrão. Em 1995,
havia em Curitiba dez shopping centers e pequenos centros comerciais. Hoje são 32 deles. Entre eles está o Estação Plaza Show,
o primeiro centro de lazer urbano do Brasil - uma área de 76.000 metros quadrados na região central da cidade, com cinemas
multiplex, bares e restaurantes. No final de 98, o grupo português Sonae adquiriu 13 lojas da cadeia local Mercadorama e 8 da rede
Coletão. Só no ano passado, três grandes cadeias de hipermercados - o Extra, do grupo Pão de Açúcar, o Big, do Sonae, e a
americana Wal-Mart - abriram quatro lojas na cidade.

      Se, de um lado, os novos investimentos trouxeram um trânsito mais pesado para as avenidas que cortam a cidade, de outro,
ajudaram a dar à cidade um ar mais cosmopolita, com novos hotéis, restaurantes com cardápios requintados e uma programação
mais ativa de shows e concertos. Nas ruas, parques, escolas, shopping centers, restaurantes e supermercados de Curitiba, o
ouvido acostuma-se aos variados sotaques da cidade. São os franceses da Renault, os suecos da Volvo - que está investindo na
ampliação de sua antiga fábrica de caminhões -, os americanos da Chrysler, os alemães da Volkswagen-Audi, os ingleses do
HSBC, o banco que incorporou o Bamerindus e cuja sede permanece em Curitiba. Estes últimos introduziram o críquete na cidade.
Pelo menos duas vezes por mês, o diretor de produtos do banco. Alan Skyrme, organiza partidas entre o Mad Dogs, o time do
HSBC, e a equipe adversária formada por estrangeiros que vivem na cidade e alguns brasileiros. As partidas são disputadas na
Associação Bamerindus, onde uma área foi adaptada para a prática do críquete.

      O paulista Adílson Zanoni, gerente executivo de recursos humanos da Volkswagen-Audi, mudou-se há três anos para Curitiba.
Desde então ele acompanha as transformações que vêm mudando a cidade e seus moradores. "Você vê os costumes das pessoas
se alterando", diz Zanoni. "Os curitibanos estão ficando mais sintonizados com o modo de vida de uma cidade grande como São
Paulo." Fazer compras de supermercado depois da meia-noite, por exemplo, passou a ser uma possibilidade desde que o
hipermercado Extra introduziu a novidade nas suas duas lojas locais que funcionam 24 horas. Não que os curitibanos
desconhecessem esse conceito de comércio que nunca cerra as portas.

      Há mais de oito anos funciona no centro de Curitiba a Rua 24 horas. Trata-se de uma galeria onde se misturam livrarias, lojas,
lanchonetes e restaurantes. Andar sossegadamente pelas ruas à noite, contudo, é um hábito que o curitibano vem perdendo. A
razão? O aumento da violência na cidade. O estudo da Simonsen Associados mostra que o percentual de mortes violentas na
cidade no ano passado, em relação ao total de óbitos, foi superior ao de São Paulo - 12,6% contra 11,4%. As ocorrências de crime
na região metropolitana de Curitiba, segundo dados da Polícia Militar do Paraná, saltaram de 9.400 em 1995 para 22.892 no ano
passado. As explicações para a explosão da criminalidade passam pelo rápido crescimento da cidade, pelas dificuldades
econômicas do país e também pela conhecida inaptidão das autoridades encarregadas de dar combate ao problema.

      No comércio, à medida que o perfil do consumidor curitibano se sofisticava, as lojas corriam atrás. Migraram nos últimos anos
para a cidade para a cidade etiquetas requintadas como a italiana Max Mara, a alemã Hugo Boss e as brasileiras Forum, Zoomp e
Richards, entre outras. O agito noturno expandiu-se no mesmo ritmo. Até pouco tempo atrás, a principal diversão nessa cidade tida
como conservadora e enfadonha por muitos turistas era visitar os parques e freqüentar as cantinas do bairro italiano de Santa
Felicidade.