Curitiba
Uma
das melhores cidades brasileiras para negócios
Hoje, os curitibanos, os nativos e os "expatriados", como são
chamados os funcionários das empresas estrangeiras que vieram
de fora, chacoalham ao som dance music, do tecno e do hip-hop nas novas
casas noturnas, como Callas, Rave e Kony's. Para
beber um chope, pode-se escolher entre duas novidades - o Bar da Brahma,
anexo à fábrica, nas mediações do centro, ou o Harley
Bar, que funciona junto a uma concessionária das lendárias motos Harley-Davidson.
Para um almoço ou jantar de negócios,
as opções vão hoje muito além das massas artesanais do Bolonha, o tradicional
restaurante italiano da cidade. Nos últimos anos, instalou-se em Curitiba
a Segunda franquia no Brasil do Bice, restaurante de
cozinha italiana surgido em Nova York e hoje espalhado por algumas das
principais metrópoles do mundo. Ali também está o
Casablanca, ponto de encontro dos executivos franceses que freqüentam
o local atraídos pelo cardápio elaborado pelo chef Claude
Troigros.
De que os estrangeiros de Curitiba não
gostam? Do quindim, tido como excessivamente doce, da caipirinha com
vodca - a
cachaça, para eles, é insubstituível - e do frio dentro das casas no
inverno. "Vim do Canadá pensando encontrar o calor do Brasil,
mas nunca pensei que fosse passar tanto frio na minha vida", diz Rudy
Tonus, diretor de produção da Chrysler. "Ninguém me
avisou que faltavam aquecedores nas casas de Curitiba". Filho de italianos,
Rudy é apaixonado por futebol. Costuma assistir aos
jogos no Arena do Atlético Paranaense, o belíssimo estádio inaugurado
no ano passado, ou no Couto Pereira, o campo do Coritiba.
Para não correr o risco de melindrar amigos diferentes que torcem por
um dos dois times, ele vai aos jogos vestido com a camisa
da Seleção Brasileira.
A excessiva burocracia nas repartições
públicas no Brasil é motivo de reclamação entre os estrangeiros. "Não
entendo por que
é necessário a assinatura de tanta gente para liberar uma pequena peça",
diz o belga Jo Temmerman, gerente da área de armação
da Volkswagen-Audi. Nas últimas semanas, a produção foi reduzida drasticamente
em todas as montadoras em razão de uma
série de paralisações dos funcionários da Receita Federal.
O impacto da chegada das indústrias para
a região metropolitana de Curitiba pode ser sentido de várias maneiras.
Eis alguns
exemplos de como a roda do dinheiro vem girando rapidamente na cidade
nos últimos anos:
- O movimento no terminal de cargas do
Aeroporto Afonso Pena, em São José dos Pinhais, a 18 quilômetros do
centro de
Curitiba, cresceu 91% no ano passado. O volume das importações e exportações
que passam por ali saltou de 8.800 toneladas em
1998 para 16.900 no ano passado. No terminal de passageiros, que opera
175 vôos por dia, há quatro linhas diárias com destino a
Rosário, Córdoba e Buenos Aires, na Argentina, e Santiago do Chile.
- O faturamento da Inepar teve um aumento
de 65 milhões de reais nos últimos dois anos em decorrência de contratos
de
fornecimento de sistemas elétricos para a Renault, Volkswagen-Audi e
Chrysler. A empresa forneceu também as estruturas
metálicas usadas na edificação dessas fábricas.
- O crescimento do turismo de lazer
e do turismo de negócios está atraindo para Curitiba redes hoteleiras
internacionais e do
Brasil. Nos últimos dois anos e meio, a Secretaria Municipal de Urbanismo
liberou 12 alvarás de construção para hotéis e apart-
hóteis. No início do próximo ano, deve ser inaugurado no Batel, área
nobre da cidade, o Blue Tree Caesar Towers, um quatro
estrelas administrado pela Blue Tree, da empresária Chieko Aoki. Em
menos de um ano, a rede Parthenon, do grupo francês
Accor, passou a operar três flats na cidade. Outros três estão em construção,
o que faz de Curitiba o segundo maior mercado da
cadeia no Brasil, atrás apenas de São Paulo. As redes americanas Choice
e Holiday Inn também estão tocando projetos na cidade.
- Que face norte, que nada! No Ecoville,
bairro novo próximo ao Parque Barigüi, a construtora Moro está comercializando
o
primeiro prédio giratório do país. Para que a área social do apartamento
- um por andar, com 270 metros quadrados de área e duas
garagens - seja banhada pelo sol a qualquer momento do dia, basta adicionar
um dispositivo fixado na parede.
- Curitiba não tem praias ou belezas
naturais, mas é a quinta cidade que mais atrai turistas de outras partes
do país, à frente
inclusive de Salvador. Os dados são da Embratur e de um estudo realizado
pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, a
Fipe. Cerca de 1,1 milhão de brasileiros visitou no ano passado atrações
turísticas da cidade, como o Jardim Botânico, a Ópera de
Arame - que sedia todos os anos o Festival de Teatro de Curitiba - e
a Pedreira Paulo Leminski, o belíssimo palco ao ar livre criado
no fundo de uma pedreira, no qual já se apresentaram desde o tenor espanhol
José Carreras até a dupla Chitãozinho e Xororó.
- A Escola Internacional de Curitiba,
cujos cursos seguem o calendário escolar dos Estados Unidos, inicia
em breve as obras
de suas novas instalações. Com as levas de estrangeiros que têm chegado
à cidade - as crianças ali matriculadas provêm de
famílias de 21 nacionalidades diferentes - , a capacidade das salas
de aulas esgotou-se. O Colégio Expoente também está
ampliando suas instalações para atender os filhos dos funcionários estrangeiros
da Renault. O currículo da escola foi adaptado aos
parâmetros exigidos pelas autoridades de ensino na França. A Aliança
Francesa está construindo sua terceira sede na cidade. Não
só cresceu a demanda por cursos de francês como também aumentou a procura
por aulas de português por parte dos estrangeiros
que se instalaram na cidade.
Em Curitiba, a média de estudos entre
os chefes de família é de 8,6 anos, contra 6,6 anos no resto do Brasil.
Esses anos a
mais de escolaridade têm ajudado os trabalhadores da região a fazer
a travessia de suas ocupações anteriores - muitos deles,
empregados no comércio e em indústrias de cerâmicas e porcelana como
a Incepa e a Schmidt - para as novas funções numa
linha de produção automatizada. Para enfrentar a falta de familiaridade
da mão-de-obra local com o setor automobilístico, as três
montadoras de veículos adotaram soluções parecidas. Selecionaram um
grupo inicial de funcionários para receber longo
treinamento em suas fábricas lá fora. Foram essas equipes precursoras
que passaram a treinar os novos funcionários à medida
que eram contratados.
Para acelerar a integração do trabalhador
local ao setor, foi criado no final de 1997 o Centro Automotivo, uma
parceria entre a
Federação das Indústrias do Paraná, a Fiep, o governo do Estado, o Ministério
do Trabalho e as montadoras, que puseram ali
equipamentos no valor de 100 milhões de reais. Instalado num conjunto
de prédios destinado anteriormente a abrigar a sede da
Fiep - um daqueles elefantes brancos comuns nas grandes cidades brasileiras
-, o Centro Automotivo já treinou mais de 5.000
alunos nas operações de pintura, lataria, montagem de carros, logística
e solda.
Na Renault, o desempenho dos funcionários
em termos de produtividade e qualidade é considerado acima das expectativas.
"Há espaço para melhorar, mas os resultados têm sido muito bons", diz
Orlando Lopes Junior, diretor de recursos humanos da
montadora, que fez uma parceria com a PUC, com a Universidade Federal
do Paraná e com o Centro Federal de Educação
Tecnológica - o Cefet - para adaptar às necessidades da fábrica os cursos
ali ministrados.
Para Tonus, da Chrysler, a pouca experiência
do trabalhador curitibano não deve ser vista como uma desvantagem. "Eles
estão
sendo treinados de acordo com a nossa cultura e têm demonstrado um bom
potencial para aprender", diz. "Evitamos, assim,
incorporar maus hábitos à linha de produção." Nas montadoras em Curitiba,
o salário médio de um principiante no chão de fábrica
é de 600 reais, a metade do que receberia em São Paulo. Trabalha-se
mais ali. Cerca de 44 horas semanais contra 40 horas no
ABC. Em compensação, as despesas com escolas, condomínios e transportes
costumam ser a metade em relação aos custos
de São Paulo.
Para o empresário Oms Sobrinho, Curitiba
deveria privilegiar agora os investimentos voltados para a área de tecnologia.
Ele
cita três setores que, a seu ver, constituem boas oportunidades de negócios.
São eles: serviços de desenvolvimento de software -
Curitiba já é o segundo pólo brasileiro dessa área -, provedores de
conteúdo para a Internet e portais de negócios entre empresas.
"É o melhor lugar do Brasil para testar serviços inovadores como esses
por causa da excelente qualificação dos moradores", diz
Oms Sobrinho, que comanda a área de novas tecnologias dentro da Inepar,
um conglomerado que atua nas áreas de equipamentos
e sistemas para infra-estrutura, energia e telecomunicações. Na secretaria
estadual de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior,
essa também é a ênfase quando se fala sobre o futuro da cidade. Até
porque o destino da indústria automobilística é usar cada vez
mais a eletrônica embarcada. Se esse item representa hoje cerca de 18%
do custo médio de um carro, daqui a dez anos deverá
saltar para 70%. "Estamos conversando com as empresas instaladas aqui
para ver suas necessidades em termos de formação de
pessoal para essa área, diz o secretário Ramiro Wahrhaftig.
A história da criação do pólo automotivo
em Curitiba por pouco não acontece. Lerner entrou na briga pela Renault,
a primeira
montadora a se instalar na cidade, a poucas semanas da data programada
pela empresa para divulgar o vencedor entre os cinco
Estados que a disputavam. Por ser um Estado com escassa tradição no
setor automobilístico (até então sediava apenas a Volvo e
a fábrica de tratores New Holland), não se acreditava que o Paraná pudesse
vencer a parada. Lerner, que despacha pela manhã no
Chapéu Pensador - uma bela construção incrustada no Parque Barigüi,
feita de vidro e toras de eucalipto - aponta uma mesa
comprida numa sala ao lado. "Foi ali que falei com a missão da Renault
pela primeira vez", diz. "Estava conversando com eles
quando um colibri entrou pela janela e pousou na mesa." Ele conta que
os franceses ficaram "encantados" com o passarinho.
"Todo mundo interpretou aquilo como um bom sinal, e eu aproveitei para
sugerir que, no futuro, quando estivessem fabricando os
carros em Curitiba, batizassem um de seus modelos de Colibri", diz.
A sugestão não foi aceita, mas Curitiba
ficou com a fábrica. Nas duas últimas décadas, ela passou por uma transformação
que
salta aos olhos de quem percorre suas ruas e avenidas, mais bonitas
nesta época do ano, quando começam a amarelar as folhas
dos plátanos, tipuanas e outras árvores da cidade. As calçadas são limpas.
As pessoas caminham sem correr o risco de ser
empurradas para o meio da rua pelas barracas dos camelôs, tão comuns
em todo o país. Em vez de grafite, os muros da área
central são cobertos pelos desenhos de Poty Lazzarotto, o maior artista
plástico da cidade, falecido há dois anos. Isso não quer
dizer que não existam pichações na cidade nem camelôs. Estes, porém,
só podem vender seus produtos em áreas previamente
demarcadas.
O que chama a atenção dos especialistas
em urbanismo é que a cirurgia feita em Curitiba não custou montanhas
de dinheiro.
"Ela é considerada uma das grandes cidades do mundo - um exemplo admirável
de transformação obtido com pouco dinheiro e
extraordinário talento e dedicação", afirmam os americanos Amory e Hunter
Lovins, fundadores do Rocky Mountain Institute, grupo
de pesquisa do Colorado que promove o uso eficiente dos recursos naturais
no mundo. Com a chegada das grandes empresas,
espera-se que ela seja capaz de dar um segundo salto. A empresa de consultoria
PricewaterhouseCoopers estima que só a
Renault vai gerar mais de 2 bilhões de reais em ICMS no período entre
2002, quando vencem os benefícios fiscais dados pelo
Estado, e 2018. Evidentemente parte desse dinheiro acabará voltando
para a capital do Estado. Com os cofres recheados, é
esperar para ver o que Curitiba fará para melhorar a vida na cidade
e, assim, continuar atraindo mais oportunidade de negócios e
de prosperidade para sua população.
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