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A Chegada
Por Emildo Coutinho

Em 22 de junho de 2000 cheguei aos Estados Unidos, mais precisamente, no Aeroporto Internacional de Miami. Após passar pela imigração, liguei para um amigo em Washington DC para dizer-lhe que havia chegado e que dentro de poucas horas estaria com ele. Pude ouvir sua voz prazeirosa dizer à telefonista que aceitava a ligação à cobrar. Também sentia-me bem por ter chegado. Estava um pouco receoso diante das dificuldades encontradas por sul-americanos nas alfândegas dos Estados Unidos. A espera do visto já havia sido uma tortura. Embora o agente tivesse me dito que meu cadastro era bom e que, acima de tudo, já havia vindo ao país em 1990, havia sempre aquela sensação de que poderia ser negado. Mesmo que o pedido houvesse sido feito por um jornalista, com carteira internacional expedida pela Federação Internacional de Jornalistas, entidade situada nos Estados Unidos.

O medo era proveniente de uma dura realidade na qual me encontrava. Era micro-empresário em Curitiba com firma no “vermelho”, os imóveis cujos contratos foram enviados eram de apartamentos financiados no “cancerígeno” sistema imobiliário brasileiro e, o pior de tudo, não possuia nenhum dinheiro. Diante de meus receios, o agente de turisto disse-me: “não se preocupe, eles não negam o visto para quem tem dinheiro”. “Mas eu não tenho!”, respondi com sinceridade. “Não importa - foi a resposta - pelo menos você parece que tem”.

E o que tinha, na verdade, era somente 20 dólares. A única e exclusiva nota da moeda norte-americana era todo o dinheiro que tinha em meu bolso quando passei pela alfândega naquela manhã de 21 de junho de 2000.
Após falar com meu amigo, Talmom Silva, - que aliás, foi quem me emprestou o dinheiro para a compra da passagem - peguei minha mochila e fui verificar se por acaso não conseguiria adiantar meu vôo para DC. Por sorte, embarcaria meia hora antes. Foi então que tive a oportunidade de observar com calma o aeroporto no qual havia passado dez anos antes, numa curta viagem a Miami e Paris, na França.

O que ajudou-me muito quando cheguei neste país foi o fato de já vir falando inglês. Embora entendendo muito pouco o inglês falado, a gramática estudada há mais de dez anos foi a base sólida para que eu praticasse a expressão oral com coerência e, o mais importante, desenvolvesse a audição, tão difícil de se conseguir quando não se vive num país de fala inglesa. No Brasil, salvo exceções, falamos inglês e entendemos a professora, saiu dali, esqueça…
Este, aliás, foi e continua sendo o meu maior objetivo nesta nação. A fuga da eterna crise econômica brasileira foi um dos fatores que, digamos, fez-me unir o útil ao agradável.

Voltando a falar de meu vôo para DC, viajei de Miami para cá junto com a seleção brasileira de futebol feminino. Esportes que envolvem bola nunca foram o meu forte, mas aproveitando para aumentar meu conhecimento numa área que até então era muito nova ao público - especialmente para um leigo como eu - e devido ao fato de uma jogadora sentar ao meu lado, comecei a fazer algumas perguntas sobre a situação atual do esporte. Segundo nossa cara jogadora, cujo nome não me lembro mais, o futebol feminino estava conquistando seu espaço e derrubando preconceitos num país onde não somente imperava absoluto o futebol masculino mas também um forte machismo.

Poucas horas depois desembarquei no Aeroporto Nacional Ronald Reagan, em Arlington, cidade situada no Estado da Virgínia, separada de DC pelo rio Potomac. Meus amigos já estavam a minha espera. Não somente Talmom, mas também Ricardo França, querido amigo curitibano de longa data. Através dele é que conheceri Talmom. Ricardo veio para cá tendo como contato um parente distante, hoje falecido, que viveu aqui por mais de trinta anos. Conheceu Talmom em nossa igreja situada nos Estados Unidos, a Congregação Cristã. A partir daí nasceu uma grande amizade, aquela espécie de afeição que poucas pessoas no mundo têm o privilégio de ter.

Devo muito a Talmom a possibilidade de ter vindo para cá. Após conseguir o visto, havia outra dificuldade: não tinha dinheiro nem cartão de crédito para comprar a passagem. Havia solicitado um, mas fora negado. Pedi para usar o do Ricardo, mas seu saldo não era o suficiente. Foi então que Talmom entrou em ação e comprou o bilhete em seu cartão de crédito.
Quando peguei minha mochila, ele se surpreendeu por ver tão pouca bagagem. Alguns anos depois, diante de tantas coisas que fui adquirindo com o passar do tempo, acharíamos engraçado e comentaríamos como as pessoas acumulam pertences pela vida afora.

Levaram-me para dar uma volta pelas redondezas e pude rever o estilo de moradias norte-americanas: casas grandes, se comparadas à realidade brasileira; poucos estilos de construções e sempre muito quadrados, o que as tornam muito parecidas e monótonas e, o que mais chama nossa atenção-terceiro-mundista: a não existência de muros.
Horas depois, já na casa de Talmom, recebi telefonema do Brasil. Minha esposa estava ansiosa e preocupada com a falta de notícias. Só então dei-me conta de que deveria ter ligado assim que chegara…

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