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Os Trabalhos
Por Emildo Coutinho

Meu primeiro trabalho foi em landscaping, ou jardinagem, em português, com um brasileiro amigo de Ricardo. Trabalhei, na verdade, apenas três ou quatro dias. Sem experiência em trabalhos pesados, no segundo dia doía todos os músculos de meu corpo. Tive dificuldade até mesmo em amarrar os cadarços de meu tênis. As dores, que sempre se manifestavam no dia seguinte, ao se levantar da cama, foram diminuindo gradativamente dia após dia. Mas meu corpo não teve tempo de se acostumar com a nova profissão e logo estava eu numa segunda atividade. Desta vez como faxineiro e catador de lixo numa empresa de limpeza. Ganhava cinquenta centavos a mais que o primeiro emprego, ou seja, recebia agora US$ 7,50 por hora de trabalho.

Sem carro, pegava carona com o supervisor, um hispano que residia perto do apartamento de Ricardo, onde morava ele, eu e um terceiro roommate, do Mato Grosso do Sul. Esta região, denominada Langley Park, é povoada quase cem por cento por hispanos. Ao se andar pelas ruas, dá-se a impressão de que não estamos nos Estados Unidos, mas sim em qualquer país da América Central ou do Sul. Os brasileiros chegaram a apelidar um condomínio há poucas quadras de onde morávamos do sugestivo nome de “Nova Guatemala”, embora os residentes sejam majoritariamente oriundos de El Salvador e México, os dois países que mais “exportam” imigrantes para os Estados Unidos. Pois bem, ao ter contato com os hispanos, descobri o quanto não entendia espanhol. Um deles, o supervisor, falava inglês, embora muito mal. O outro, praticamente nada. Ele tentava se comunicar comigo em sua língua, pois sabia que los brasileños geralmente entendiam o espanhol. Mas, para que isso aconteça, é necessário um contato com a língua. Coisa que eu jamais tivera. Eu nem tentava arriscar um “portunhol” e, mesmo que fizesse, não seria compreendido.

Na ansiedade em que me encontrava de praticar o inglês não havia espaço para se pensar em apreender o espanhol. Mas deixemos esse assunto para mais tarde…

Quando me vi catando lixo do chão, naquele condomínio classe média baixa, comecei a meditar em minha nova vida. Havia sofrido muito financeiramente no Brasil e isso ajudava-me a suportar tal tarefa. Os hispanos me ensinavam como trabalhar. Também tentava entender o sistema de horas de trabalho e pagamento nos Estados Unidos. Algo totalmente novo, aliado ao problema de comunicação. Tornou-se uma dor-de-cabeça constante. Levei algum tempo para entender os descontos, ciclo de pagamento, etc. Sem falar nas normas do sistema bancário… Hoje tudo faz sentido, embora nunca cessemos de comparar o que há de bom e funcional em ambos os países.

Poucos dias depois um brasileiro juntou-se a mim no trabalho. Na verdade, tratava-se de um “irmão na fé”, pois pertencemos a mesma igreja. Oficialmente ele era meu helper e, por tão honrada posição, eu ganhava cinqüenta centavos por hora a mais que ele. Jamais encarei a coisa dessa forma, ou seja, minha condição de “supervisor”. Para mim, isso não fazia sentido algum. Estava mais preocupado em resolver problemas - aqui e no Brasil - e pensar nos detalhes e ajustamentos de uma nova vida. Em como absorver algo que, mesmo quando não queremos, mexe com nossos sentimentos. Falo da mudança brusca de status. Embora de uma certa forma eu já estivesse preparado para isso, quando vi minha vida professional transformar-se de jornalista a catador de lixo, houve um determinado momento em que senti-me muito mal.

De início encarei tudo de uma forma irreverente. Algo assim como “curso-de-humildade-através-de trabalho-de-baixo-escalão”. A única coisa que me encomodava era a falta de cumprimento por parte dos americanos, especialmente quando se tratava de um faxineiro. Se entre eles próprios há pouco disso, imagine quando se trata de tão baixa posição. Para a grande maioria era como se eu não existisse. Havia sempre muito poucas respostas aos good mornings que saiam de minha boca. Isso me encomodava, pois como disse antes, estava ansioso em praticar o inglês que havia estudado por mais de dez anos no Brasil.
O que precisava era paz e tranqüilidade para me recuperar de um stress que já trouxera do Brasil. Ao invés de melhorar minha vida, ter um ajudante só piorou a situação. Ele, muito diferente de mim, encarou-me como seu chefe e cobrava coisas que nem eu entendia… Ao mesmo tempo em que decidia tudo e fazia do jeito que bem entendia, cobrava de mim o pagamento de alguns dias que ficaram para trás ao dar-se início a uma nova semana. Eu estava naquela fase em que precisava acostumar-me com a língua para poder entender o inglês falado. Ligava para a empresa, conversava com o supervisor hispano, enfim, tentava resolver um problema que levou alguns dias para que chegássemos a uma solução. E, enquanto isso não acontecia, era cobrado semanalmente.

Para piorar a situação, comecei a trabalhar a noite com ele, meu helper, e sua família. Foi a segunda pessoa que encontrei, em toda minha vida, com o maior dom de causar confusão, discusão e complicar as coisas. Não agüentei a barra e deixei de trabalhar com eles. Trata-se da limpeza de um aglomerado de entidades judáicas formado por salas e mais salas, biblioteca, quadra de esporte de ginástica, enfim, algo sem fim quando se trata de lidar com limpeza, lixo e fedores.
O drama naquele lugar era encarado por mim como uma espécie de mal que vem para o bem. Ou seja, ninguém falava inglês a não ser eu. Mas quem mais reclamava, reivindicava, sugeria, opinava, criticava, era a família de meu helper que, naquele lugar, era meu superior. Bem, como eles não falavam inglês, o que faziam então? Usavam-me como tradutor de suas reclamações, reivindicações, enfim, todas os verbos acima.

Eu encarava tudo como uma prática de inglês. Nunca na vida fiquei tão contente por ser instrumento de tamanha situação desgastante. Nosso chefe era um americano negro. Certo dia disse-me que se meu colega continuasse burning up - gíria em inglês para ataque de fúria - ele o despediria. Foi a primeira vez na vida que tive aquela sensação engraçada de ver alguém falar de uma pessoa em sua presença e ela não entender bolhufas.

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