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Antes de iniciar
a reflexão específica sobre a Páscoa gostaria de
discorrer sobre uma simbologia genérica que circunda esta festa.
De modo geral a Páscoa significa o renascimento, a vida nova
que sucede após a marca de um fim. Um símbolo universal
para ela é o círculo, ele não tem começo
e nem fim, ele representa a eternidade e também os ciclos da
natureza, os ciclos vividos pelos seres vivos como nascimento e morte,
entre outros.
As comunidades indígenas dançam e celebram em círculo,
mandalas são circulares, o ovo, um dos símbolos pascais
é redondo. O mito do ovo como origem do universo se encontra
em diferentes partes do planeta. O ovo simboliza o potencial de vida,
a imortalidade e o útero gerador de vida. A forma do tambor,
instrumento que para algumas culturas simboliza o som primordial, é
circular. Tambores tocando podem significar, para muitos índios
o som do coração do universo. As tablas indianas, espécie
de tambores, são reconhecidos como pertencente a Shiva, divindade
que percute neles o pulsar do universo. Da mesma forma os gongos chineses
marcam etapas de tempo e címbalos tibetanos simbolizam a conecção
com o céu, todos esses objetos são circulares.
O zero foi inventado na Índia e representa o não ser e
a eternidade. Para Pitágoras era a forma perfeita que contém
tudo e do qual tudo é criado. No Islã ele é luz
ilimitada e essência divina. No símbolo taoísta
do Yin e Yang é o círculo quem contém a representação
das polaridades que movimentam a vida e a morte. O próprio sol
na linguagem alquímica é representado por um círculo.
A bola de cristal destinada a predição do destino pode
concentar os raios do sol, tendo sido escolhida pelos exotéricos
para representar um objeto de poder simbólico.
Como exemplo transcreverei o um mito de criação do universo,
do povo chinês.
O Yin e o Yang estavam contidos dentro de um ovo gigantesco. Ao lutarem
entre si, quebraram o ovo ao meio, revelando o criador chamado Pan Ku.
Quando o Deus emergiu do ovo a terra e o céu se separaram e Pan
Ku, entre os dois, manteve-os separados. Por 18.000 anos o deus trabalhou
na criação , usando martelo e formão, ajudado apenas
por um dragão, uma fênix e um unicórnio, um tigre
e uma tartaruga. Quando Pan Ku morreu, seu hálito transformou-se
no vento e seus olhos no sol e na lua.
Como pudemos ver o ovo é uma representação simbólica
extremamente forte na psique do ser humano não importando a região
na qual ele habita.
Não é por acaso que ele foi escolhido como um dos importantes
símbolos pascais. A idéia de se presentear pessoas com
ovos de chocolate só surgiu na época do desenvolvimento
da indústria chocolateira, antes disso os ovos de galinha eram
pintados com cores vibrantes e presenteados a pessoas queridas, costumava-se
também colocar mensagens dentro deles e em alguns lugares se
colocavam imagens religiosas em seu interior.
Em 1883, Peter Carl Fabergé, a pedido de um czar russo confeccionou
como presente de Páscoa para a esposa do czar um ovo em prata,
ouro e pedras preciosas e em seu interior ele depositou uma réplica
da coroa. Muito impressionado o Czar pediu a Fabergé que fizesse
mais ovos como aquele para serem distribuídos durante a Páscoa.
Atualmente em nossa cultura marcada pela industrialização
o ovo de Páscoa passou a ser de chocolate, bem como os coelhinhos
que são marca deste período de festa.
A tradição do coelho foi trazida para a América
por imigrantes em 1700. Muitos diziam às crianças que
o coelhinho havia escondido os ovos e elas teriam que procurá-los
no Domingo de Páscoa.
Certa lenda diz que uma mulher pobre coloriu ovos para presentear seus
filhos e que os escondeu em um ninho, quando as crianças descobriram
os ovos viram passar um coelhinho correndo e aí surgiu a idéia
de que são eles quem trazem os ovos.
Mas, os coelhos também simbolizam aspectos importantes para diferentes
culturas. No Egito antigo o coelho simbolizava o nascimento e a nova
vida, povos da antigüidade o consideravam símbolo da lua.
Há uma hipótese de ele tenha se tornado símbolo
pascal por se a lua fator determinante da data da Páscoa.
Outro simbologia para o coelho é a da fertilidade, ele é
um animal bastante fértil. Para a astrologia chinesa o coelho
representa a sensibilidade e o conforto, se afastando sempre que possível
de revoluções e conflitos, é um pacifista. A lebre
é animal noturno, e temos aí mais uma vez a associação
com a lua. Para alguns índios a Grande Lebre representa personagens
opostos: parte palhaço e parte deus criador. Este animal se relaciona
estreitamente com a terra, portanto partilha com ela do mesmo impulso
de fertilidade.
No Hinduísmo, religião muito antiga, existe uma festa
denominada Holi, que comemora a chegada da primavera, se realiza em
março ou abril. É uma celebração de fertilidade.
Nesta festa as pessoas acendem fogueiras para assar alimentos especiais
e observar o fogo. Acredita-se que as terras que estiverem na direção
do fogo serão as mais férteis no ano seguinte, esses povos
realizam, também, danças de fertilidade. No decorrer da
festa barreiras sociais são rompidas, membros de diferentes castas
jogam tinta colorida uns nos outros.
No Budismo japonês crianças celebram Hana Matsuri, importante
festa mahayana do dia 8 de abril. Se comemora o nascimento de Buda e
também a chegada da primavera.
O povo Judeu comera o Pessach, ou seja: a passagem. Esta é a
Páscoa Judaica. Nela o povo celebra o êxodo do Egito. Para
eles a Páscoa é momento de lembrar o processo de libertação
que ocorreu. Em Israel entre os judeus reformitas a celebração
dura sete dias. O primeiro e o sétimo são feriados completos
nos quais não se deve trabalhar.
O
grande evento da Páscoa é o Seder(ordem), a refeição,
antes dela é lido o haggada que é o relato da história
da escravidão e libertação. No Seder de Pessach,
em lares judaicos, um lindo prato é organizado e nele aparecem
sob a forma circular, imagens pintadas cujo tema são as dez pragas
sofridas pelos egípcios. São postos sob o prato elementos
tais como: osso de carneiro, ovo queimado, raízes amargas, entre
outros. Cada um deles com simbologia própria; o osso simboliza
o carneiro de Pessach, o ovo as oferendas, a raiz amarga a vida no Egito.
Depois da refeição é feita a ação
de graças, seguida por várias canções.
A Umbanda por ter assimilado diversos elementos cristãos também
celebra a Páscoa. No Domingo de Ramos se consagram ervas, fazem
batizados e benzimentos. Na Sexta-feira da Paixão diversos rituais
são realizados, inclusive simpatias. No Sábado de Aleluia
muitas festas para orixás. No Domingo de Páscoa faz-se
trabalhos de erê, São Cosmi e Damião, festa para
crianças, ajuda aos pobres e carentes. Emprega-se a mesma filosofia
referente ao coelho, ovos de chocolate, presentes, mensagens de fé
e otimismo, muita oração e amor ao próximo.
Para os cristãos de modo geral, Páscoa lembra que quando
as pessoas morrem não é o fim pois há uma vida
eterna com Deus para aqueles que crêem nele. Na Páscoa
as igrejas são decoradas com flores e os cristãos festejam,
cantam e trocam presentes, ovos de Páscoa, simbolizando a vida
eterna que Jesus deu a todos os fiéis.
O círio pascal , aquela vela grande que se acende nas igrejas,
representa a luz da vida. Nesta celebração os cristão
fazem uma fogueira fora da igreja, o simbolismo do fogo para representar
a divindade é assimilado do Zoroastrismo, religião persa
anterior ao cristianismo, na qual o fogo era representativo da presença
do transcendente. Para o cristianismo, no momento da celebração
Pascal o fogo, a luz, a vida são trazidos para dentro do templo
a fim de comemorar a vinda da luz de Cristo.
São muitas as maneiras pelas quais o ser humano celebra a possibilidade
da renovação da vida e a Páscoa é, sem dúvida,
um momento que marca ritualmente a passagem de um estado de ser para
outro, marcando psiquicamente as pessoas e trazendo-lhes uma dimensão
de esperança e leveza para se viver a vida. Assim como a primavera
renova as possibilidades de vida sobre a terra, a Páscoa renova
energias interiores a fim de gerar condições para novas
possibilidades de vida para os seres humanos.
Emerli Schlögl
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