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Fotos
e Rumos – Como foi a preparação para andar a pé num trajeto tão
longo?
Vera Freitas – Foram meses de preparação: compra da bota para a
caminhada, mochila, saco de dormir e treinamento
físico. No início, as caminhadas de preparação eram tímidas, depois
fui acelerando em distância e freqüência. Ia a pé para
o trabalho quase todos os dias, ia ao parque Barigui, em Curitiba, nos
finais de semana e quando podia fazia as trilhas de
cachoeira em Itapoá, SC, caminhava pelos cânions e outros lugares, até
que chegou o dia da partida.
Fotos
e Rumos – Quando foi o início da caminhada?
Vera
Freitas – Parti de Curitiba sozinha, no dia 27 de abril. Fiz escala
em São Paulo e Madri e ao chegar ao aeroporto de
Pamplona encontrei, por acaso, alguns brasileiros, onde dividimos uma
van e fomos até Saint Jean Ried-Port, na França.
Foi na manhã do dia 29 de maio que iniciei minha jornada, optei pelo
caminho tradicional: a Rota de Napoleão, assim
denominado porque ali as tropas de Napoleão passaram para invadir a
Espanha. Aquela trilha, que já tem mil anos como
caminho de peregrinação, foi percorrida por soldados de Carlos Magno
e outros.
Fotos
e Rumos – O que você viu no trajeto?
Vera
Freitas – Atravessei as terras dos Pirineus, na França, até a Galícia,
na Espanha, passando por oito províncias e
encontrando ermidas, refúgios, fontes, cruzes, velhas pontes, construções
religiosas de importante valor histórico, até
chegar a Santiago de Compostela, cidade do apóstolo Thiago, irmão de
João Evangelista, filho de Zebedeu e de Salomé,
santo padroeiro da Espanha. A cidade foi considerada em 1985 pela Unesco
como Patrimônio da Humanidade e o primeiro
itinerário cultural europeu.
Fotos
e Rumos – Quais foram as suas impressões?
Vera
Freitas – Não vi o Caminho de Santiago como uma provação, um sacrifício
ou mesmo exercício de disciplina. Vi
mais como um grande desafio, uma celebração feliz e literalmente uma
festa. Era uma alegria, ao final do dia reencontrar os
caminhantes do início da manhã, da madrugada do dia anterior ou de alguns
dias atrás: velhos e novos conhecidos, gente
de todas as partes do mundo (europeus, canadenses, americanos, brasileiros,
australianos, neozelandeses) e brindar
durante a ceia pela etapa vencida naquele dia. Descobri, enquanto caminhava
em silêncio ou em conversa com outros
peregrinos, ou no diário que escrevi todas as noites, às vezes com a
luz da lanterna, pois a luz apaga cedo nos refúgios,
que eu ia me defrontando com meus medos, dúvidas, questionamentos, fantasias
e, principalmente, com as lições do caminho.
Fotos
e Rumos – Quando se caminha tantos quilômetros, 780 no seu caso,
a tendência é querer chegar logo no fim.
Conte para a gente como você superou uma jornada tão longa?
Vera
Freitas – Na verdade, o melhor é ter em mente que se deve dar um
passo de cada vez, um dia de cada vez e que a
vida é hoje. Peregrino significa aquele que cruza os campos, então caminhar
é o que nos torna peregrinos e chegar a
Catedral de Santiago de Compostela, no fim da caminhada, torna-se um
objetivo aparente. A viagem geográfica (em si)
é a menos importante, o caminho sagrado também, porque penso que todo
o planeta é sagrado. A viagem mais importante
é a que fazemos para dentro de nós, o que torna os caminhos longos e
afastados do nosso dia, perfeitos. Ao nos tornarmos
peregrinos, nos desapegamos de muitas coisas e descobrimos que os valores
essenciais são poucos e que estão ao
alcance de todos nós. Para percorrer o caminho e empreender transformações,
também são fundamentais a coragem
e a determinação, mas acima de tudo, a fé. Esta, diz o ditado, é capaz
de remover montanhas. |