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Caminho de Santiago

Entrevista com Vera Freitas


Por LL

      “Conhece a ti mesmo e conhecerás o universo” diz a máxima. “ A viagem mais importante é a que fazemos para
dentro de nós”, revela Vera Freitas, professora de biologia, casada, com três filhos.

      Vera levou vinte e oito dias para percorrer a pé os 780 quilômetros do Caminho de Santiago: um caminho de fé
que é o sonho de muitos, mas realidade apenas para alguns.

     Após realizar este sonho, ela compartilha com os leitores do Fotos e Rumos.com as impressões sobre sua jornada.

      Fotos e Rumos – Como foi a preparação para andar a pé num trajeto tão longo?
      Vera Freitas – Foram meses de preparação: compra da bota para a caminhada, mochila, saco de dormir e treinamento
físico. No início, as caminhadas de preparação eram tímidas, depois fui acelerando em distância e freqüência. Ia a pé para
o trabalho quase todos os dias, ia ao parque Barigui, em Curitiba, nos finais de semana e quando podia fazia as trilhas de
cachoeira em Itapoá, SC, caminhava pelos cânions e outros lugares, até que chegou o dia da partida.

      Fotos e Rumos – Quando foi o início da caminhada?
      Vera Freitas – Parti de Curitiba sozinha, no dia 27 de abril. Fiz escala em São Paulo e Madri e ao chegar ao aeroporto de
Pamplona encontrei, por acaso, alguns brasileiros, onde dividimos uma van e fomos até Saint Jean Ried-Port, na França.
Foi na manhã do dia 29 de maio que iniciei minha jornada, optei pelo caminho tradicional: a Rota de Napoleão, assim
denominado porque ali as tropas de Napoleão passaram para invadir a Espanha. Aquela trilha, que já tem mil anos como
caminho de peregrinação, foi percorrida por soldados de Carlos Magno e outros.

      Fotos e Rumos – O que você viu no trajeto?
      Vera Freitas – Atravessei as terras dos Pirineus, na França, até a Galícia, na Espanha, passando por oito províncias e
encontrando ermidas, refúgios, fontes, cruzes, velhas pontes, construções religiosas de importante valor histórico, até
chegar a Santiago de Compostela, cidade do apóstolo Thiago, irmão de João Evangelista, filho de Zebedeu e de Salomé,
santo padroeiro da Espanha. A cidade foi considerada em 1985 pela Unesco como Patrimônio da Humanidade e o primeiro
itinerário cultural europeu.

      Fotos e Rumos – Quais foram as suas impressões?
      Vera Freitas – Não vi o Caminho de Santiago como uma provação, um sacrifício ou mesmo exercício de disciplina. Vi
mais como um grande desafio, uma celebração feliz e literalmente uma festa. Era uma alegria, ao final do dia reencontrar os
caminhantes do início da manhã, da madrugada do dia anterior ou de alguns dias atrás: velhos e novos conhecidos, gente
de todas as partes do mundo (europeus, canadenses, americanos, brasileiros, australianos, neozelandeses) e brindar
durante a ceia pela etapa vencida naquele dia. Descobri, enquanto caminhava em silêncio ou em conversa com outros
peregrinos, ou no diário que escrevi todas as noites, às vezes com a luz da lanterna, pois a luz apaga cedo nos refúgios,
que eu ia me defrontando com meus medos, dúvidas, questionamentos, fantasias e, principalmente, com as lições do caminho.

      Fotos e Rumos – Quando se caminha tantos quilômetros, 780 no seu caso, a tendência é querer chegar logo no fim.
Conte para a gente como você superou uma jornada tão longa?
      Vera Freitas – Na verdade, o melhor é ter em mente que se deve dar um passo de cada vez, um dia de cada vez e que a
vida é hoje. Peregrino significa aquele que cruza os campos, então caminhar é o que nos torna peregrinos e chegar a
Catedral de Santiago de Compostela, no fim da caminhada, torna-se um objetivo aparente. A viagem geográfica (em si)
é a menos importante, o caminho sagrado também, porque penso que todo o planeta é sagrado. A viagem mais importante
é a que fazemos para dentro de nós, o que torna os caminhos longos e afastados do nosso dia, perfeitos. Ao nos tornarmos
peregrinos, nos desapegamos de muitas coisas e descobrimos que os valores essenciais são poucos e que estão ao
alcance de todos nós. Para percorrer o caminho e empreender transformações, também são fundamentais a coragem
e a determinação, mas acima de tudo, a fé. Esta, diz o ditado, é capaz de remover montanhas.