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Fotos
e Rumos – O que motiva uma pessoa a se tornar viajante?
Emerli Schlögl – Os viajantes são sempre pessoas em busca do
novo, da aventura. Parece que em seu interior um eu
inconformado lhes impele ao diferente. Eles sabem, de maneira intuitiva,
que toda experiência é um fenômeno vivido pelo corpo.
Deixam rugas e cicatrizes que os deixam orgulhosos. Rugas formadas por
terem escalado uma montanha íngreme, cicatrizes
por incidentes de percurso, ou ainda apenas marcas internas de suas
vivências, sob a forma de recordação, às quais podem
retornar sempre que desejarem.
Fotos
e Rumos – As pessoas que viajam apresentam o mesmo comportamento
das que permancecem sempre num
mesmo lugar?
Emerli Schlögl – É fácil reconhecer um viajante, ele tem em
suas histórias um conhecimento profundo do que é o transitório,
o impermanente e a beleza. Eles têm uma meta e um fascínio que os mantêm
com os pés em movimento, pelas estradas de
todos os lugares para descobrir-se e conhecer-se em meio à vida. Não
é de estranhar que o comportamento cotidiano do indivíduo
que saltou de pára-quedas, mergulhou em águas diferentes, transitou
entre diferentes povos e culturas e resvalou em tantos
barrancos, seja moldado por um quê de ousadia e encantamento.
Fotos e Rumos – Para se tornar
um aventureiro o que seria importante levar em consideração?
Emerli Schlögl – Para
que alguém se torne um aventureiro é imprescindível um atributo: saber
se divertir até com as
dificuldades que traz ao viajante o conhecimento sobre seus próprios
sentimentos e maneiras de ser. Para os outros o
comportamento dos viajantes pode parecer um tanto excêntrico. Eles guardam
lembrancinhas das mais esquisitas, inclusive seus
trajes velhos e rasgados. Muitas vezes ao retornarem de alguma trilha
ecológica, percorrem um centro urbano, sorridentes, com
suas adoradas roupas velhas, cheios de alegria no coração, ostentando
suas marcas de barro e rasgões, como verdadeiras
histórias registradas junto aos seus corpos.
Fotos
e Rumos – Os viajantes tem uma visão diferente da realidade?
Emerli Schlögl – Eles aprendem,
na prática, a ver a alma das coisas, não se deixando ludibriar pelas
aparências e
modismos. Há uma liberdade sacralizada por todo viajante, é a liberdade
de ir e vir. Ninguém compreende melhor do que eles,
o que é movimento, eles sabem que a mudança faz parte da vida e que
a estagnação é a sua antítese.
Fotos e Rumos – Isso quer
dizer que a experiência resultante de uma viagem é primordial
para o desenvolvimento do
próprio ser humano?
Emerli Schlögl – Sim, esses
andarilhos curiosos não passam pelos dias, eles fazem passagens, descobrem
novos
caminhos, se arriscam por um pouco mais de sabedoria que está em sua
compreensão que é muito mais do que mera
informação. Muitas linhas da psicologia enfatizam, em seu campo teórico,
a importância da experiência, da vivência, do não
ter medo da vida e ser capaz de vivê-la, para que novos ingredientes
sejam adicionados à história pessoal de cada um, permitindo
dessa forma, que um novo repertório de respostas seja possível. Libertando
o indivíduo da rigidez de padrões de comportamento
anteriormente adquiridos, e portanto, fixados nele através da falsa
crença de que ele só poderia reagir de uma determinada
maneira face à vida, e aos estímulos vindos de seu mundo de relações.
Fotos e Rumos – O que um
viajante, por exemplo, pode aprender em terras distantes?
Emerli Schlögl – Para aquele
que percorre muitos caminhos e cruza sua história com a história de
tantos outros, fica
uma certeza, a de que ninguém é melhor do que ninguém, a de que o diferente
pode a princípio causar estranhamento que
cederá lugar a um outro sentimento, o da descoberta de algo que antes
lhe estava oculto ao primeiro olhar. Ele sabe, porque
já viveu isto, que tudo que é diferente, ou seja, a alteridade, o outro,
deve ser respeitado em seu direito de ser.
Fotos e Rumos – Mas... e
aquele viajante que parece não aprender nada?
Emerli Schlögl – um caminhante
que destrói uma flor, que polui um rio, que desdenha outros seres humanos,
que possui
uma idéia internalizada de superioridade e que não sabe o que é o respeito
e a comunicação interespécies, este não é um
aventureiro, não é um viajante, está ainda preso em seu narcisismo infantil,
não saiu de si para que o encontro lhe transformasse
a alma, seu corpo e sua psique. Por mais que seus pés caminhem, ele
ainda não saiu do lugar. A aventura de ir para qualquer
lugar que seja é, antes de mais nada, o consentimento interno para se
permitir ser e estar no mundo, relativizando os próprios
conceitos e percebendo que a vida em sua diversidade é muito ampla e
complexa. Por mais que se reflita sobre a vida, se tente
classificar e interpretar os seus fenômenos, a sabedoria extraída da
experiência, que pode ter sido obtida de tantas formas, como
por exemplo: através de um banho de cachoeira, de uma vista do topo
de uma montanha, ou um banquete de pão e chá entre
amigos ao redor de uma fogueira, em qualquer lugar deste planeta, não
pode ser categorizada ou mesmo comunicada em
essência através da palavra, ela simplesmente pode ser vivida até o
mais profundo de nós mesmos.
Fotos e Rumos – Algo mais
que você gostaria de dizer ao nosso leitor ?
Emerli Schlögl – Se você,
leitor do Fotos e rumos.com, é viajante, não resta a menor dúvida
de que elas foram uma
simples forma de trazer ao seu pensamento consciente tudo aquilo que
você já sabe, por experiência própria.
Fotos e Rumos – Recentemente
você escreveu um livro sobre os valores humanos, em que são
desenvolvidos temas
que dizem respeito ao prazer e a autoexpressão, além de
outros itens co-relacionados, qual é o objetivo dessa obra?
Emerli Schlögl – O livro
Expansão Criativa - por uma pedagogia da autodescoberta
de minha
autoria, editado pela
Editora Vozes, busca desestruturar modelos rígidos de raciocínio.
Pode ser muito útil para quem trabalha com grupos. Para os
interessados que quiserem manter contato comigo basta escrever para:
Caixa Postal 13540, CEP 80420-990, Curitiba, Paraná,
Brasil ou enviar sua mensagem para o e-mail: emerlischlogl@hotmail.com.
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