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O Cemitério de Navios

     "Um dos momentos felizes da vida, parece-me ser o da partida
para uma longa jornada por terras desconhecidas. Ao libertar-se com esforço supremo
dos grilhões do hábito, do peso insuportável da rotina, do manto
das inúmeras preocupações e da escravidão do lar, o homem consegue
sentir-se feliz novamente. Seu sangue começa a fluir, então, na velocidade
da infância e nasce outra vez a aurora da vida", disse Richard Burton.

Texto e fotos de Levis Litz

      Foi exatamente com as palavras de Richard Burton em minha mente que me lancei em
direção as praias semi-desertas do Rio Grande do Sul.

      Eram seis horas da manhã de uma sexta-feira nublada, mas de temperatura amena.
Abri meus olhos e percebi que estava na hora de partir. No rádio, a voz do jornalista
Heródoto Barbeiro dando as últimas notícias.

      Após um café reforçado, peguei a bagagem, dei a partida na motocicleta e arranquei
para mais uma emoção junto com a Valesca, minha esposa. Pretendíamos continuar a
viagem que tínhamos feito no ano anterior até a Praia de Torres (RS).

      Com o pé na estrada, parávamos em média, a cada 150 quilômetros para descansar. E
no final da Serra do Espigão descansamos a sombra de uma enorme estátua caracterizada
de gaúcho.

      Sem pressa e sem chuva pelo caminho e com a velocidade de cruzeiro em torno de
80 km/h, sempre respeitando as limitações da moto, chegamos em Caxias do Sul às seis
horas da tarde. Foram 12 horas de viagem para 610 quilômetros rodados.

      Caxias, na Serra Gaúcha, era um ponto estratégico para descanso. Por dois dias
choveu bastante, parecia que o El Niño também estava na cidade.

                                            Entre expectativas e desafios

      No primeiro dia com sol, partimos para a Praia do Quintão, via Palmares do Sul. Aí
começou, de fato, a aventura.








      Ao respirar o ar misturado com a maresia, pegamos a areia beira-mar e aceleramos rumo ao sul. Nessa rota, de
aproximadamente 120 quilômetros, não havia estradas e nem acesso a lugar algum, ou você completa o trajeto, ou volta para o
início e, assim, nós estávamos por nossa própria conta e risco.

      Ainda nos primeiros dez quilômetros, víamos algumas casas e poucos pescadores solitários. Entretanto, mais adiante,
a monotonia era quebrada apenas por revoadas de aves migratórias que faziam um espetáculo à parte. Essa área, entre o
Balneário de Quintão e o Farol de Mostardas, é conhecida como "Cemitério de Navios" e logo apareceram os primeiros barcos
encalhados e restos de naufrágios que foram pegos pelas violentas tempestades de inverno.

      Ali são visíveis também diversos mastros enterrados na areia. Essa faixa entre o Atlântico e a Lagoa dos Patos é inóspita e
é açoitada freqüentemente pela fúria das forças da natureza. Até restos de veículos abandonados e atolados são avistados pelo
caminho.

      Com a expectativa de viajar sem indicação, tentávamos não perder de vista os rastros dos pneus de outros veículos. Num
trecho onde a areia parecia asfalto, admirado com a sensação de leveza que o ambiente nos dava, a velocidade da moto ia
aumentando.

      De repente, fomos surpreendidos pelo nosso primeiro bolsão de areia. Na superfície, nada diferenciava do resto do trajeto,
mas na verdade a areia era quase tão fofa como uma duna. Não deu outra, o pneu dianteiro travou na hora. Valesca veio com
bagagem e tudo para cima de mim, e eu, pressionado entre ela e a direção, apoiei a moto no meu joelho esquerdo.

      Não chegamos a cair, mas esse foi o nosso primeiro acidente e a primeira lição à beira-mar. Felizmente, ninguém se
machucou. O nosso avanço, a partir daí, foi mais lento, cerca de 30 km/h. Nessa imensa praia deserta, repleta de lagoas
que se conectam com o mar, entre as dunas, tínhamos que tomar cuidado, também, com barrancos formados por pequenos
riachos - os arroios.

      Atolar num deles poderia significar uma bela dor de cabeça e teríamos como testemunhas dezenas de aves nativas. Num
desses arroios, que era muito largo, a água era turva, não podendo-se enxergar propriamente o fundo. Quando dei por mim,
parei na beira de uma vala bem funda. Gritei para a Valesca sair da moto, os pneus começaram a atolar. A moto começou a
afundar. Com a água pelos joelhos rapidamente desci da moto e num esforço supremo a puxei para trás, o suficiente para
desviá-la da margem. Foi adrenalina pura.

      Essa é a vantagem em viajar numa motocicleta leve, se fosse qualquer outra, não sei não. Com os olhos doendo um pouco,
devido à luminosidade refletida na areia, chegamos, segundo nosso mapa, no Farol da Solidão. Até então havíamos percorrido
cerca de 55 quilômetros e dois sustos.

      O sol foi perdendo sua intensidade, mas acabou atrapalhando ainda mais minha visão à medida que se punha a minha frente.
A nossa preocupação era com o anoitecer, queríamos estar em Mostardas antes que escurecesse - viajar à noite à beira-mar
não fazia parte de nossos planos, mas, depois de muita tensão, tudo deu certo. O esforço foi recompensado pela experiência,
paisagens e um belo jantar numa pousada em Mostardas, onde chegamos, sãos e salvos, quase ao anoitecer.