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O Cemitério de Navios "Um
dos momentos felizes da vida, parece-me ser o da partida Texto e fotos de Levis Litz Foi
exatamente com as palavras de Richard Burton em minha mente que me lancei
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respirar o ar misturado com a maresia, pegamos a areia beira-mar e aceleramos
rumo ao sul. Nessa rota, de aproximadamente 120 quilômetros, não havia estradas e nem acesso a lugar algum, ou você completa o trajeto, ou volta para o início e, assim, nós estávamos por nossa própria conta e risco. Ainda nos primeiros dez quilômetros, víamos algumas casas e poucos pescadores solitários. Entretanto, mais adiante, a monotonia era quebrada apenas por revoadas de aves migratórias que faziam um espetáculo à parte. Essa área, entre o Balneário de Quintão e o Farol de Mostardas, é conhecida como "Cemitério de Navios" e logo apareceram os primeiros barcos encalhados e restos de naufrágios que foram pegos pelas violentas tempestades de inverno. Ali são visíveis também diversos mastros enterrados na areia. Essa faixa entre o Atlântico e a Lagoa dos Patos é inóspita e é açoitada freqüentemente pela fúria das forças da natureza. Até restos de veículos abandonados e atolados são avistados pelo caminho. Com a expectativa de viajar sem indicação, tentávamos não perder de vista os rastros dos pneus de outros veículos. Num trecho onde a areia parecia asfalto, admirado com a sensação de leveza que o ambiente nos dava, a velocidade da moto ia aumentando. De repente, fomos surpreendidos pelo nosso primeiro bolsão de areia. Na superfície, nada diferenciava do resto do trajeto, mas na verdade a areia era quase tão fofa como uma duna. Não deu outra, o pneu dianteiro travou na hora. Valesca veio com bagagem e tudo para cima de mim, e eu, pressionado entre ela e a direção, apoiei a moto no meu joelho esquerdo. Não chegamos a cair, mas esse foi o nosso primeiro acidente e a primeira lição à beira-mar. Felizmente, ninguém se machucou. O nosso avanço, a partir daí, foi mais lento, cerca de 30 km/h. Nessa imensa praia deserta, repleta de lagoas que se conectam com o mar, entre as dunas, tínhamos que tomar cuidado, também, com barrancos formados por pequenos riachos - os arroios. Atolar num deles poderia significar uma bela dor de cabeça e teríamos como testemunhas dezenas de aves nativas. Num desses arroios, que era muito largo, a água era turva, não podendo-se enxergar propriamente o fundo. Quando dei por mim, parei na beira de uma vala bem funda. Gritei para a Valesca sair da moto, os pneus começaram a atolar. A moto começou a afundar. Com a água pelos joelhos rapidamente desci da moto e num esforço supremo a puxei para trás, o suficiente para desviá-la da margem. Foi adrenalina pura. Essa é a vantagem em viajar numa motocicleta leve, se fosse qualquer outra, não sei não. Com os olhos doendo um pouco, devido à luminosidade refletida na areia, chegamos, segundo nosso mapa, no Farol da Solidão. Até então havíamos percorrido cerca de 55 quilômetros e dois sustos. O sol foi perdendo sua intensidade, mas acabou atrapalhando ainda mais minha visão à medida que se punha a minha frente. A nossa preocupação era com o anoitecer, queríamos estar em Mostardas antes que escurecesse - viajar à noite à beira-mar não fazia parte de nossos planos, mas, depois de muita tensão, tudo deu certo. O esforço foi recompensado pela experiência, paisagens e um belo jantar numa pousada em Mostardas, onde chegamos, sãos e salvos, quase ao anoitecer. |