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Valesca lembrou que tínhamos uma
maçã, a qual devoramos lentamente, aproveitamos todo o suco para umedecer
os lábios.
Enfim, após quatro horas de caminhada à beira da estrada
e do nosso limite, chegamos ao posto, percorrendo a pé 18 quilômetros.
Mais tarde, pensamos que tivemos sorte, se considerarmos que o último
ponto habitável tinha ficado para trás mais de 100
quilômetros e podíamos ter ficado bem no meio do caminho.
O
cotidiano do regresso
Depois de ter percorrido cerca de
30 dias em direção ao sul, o ritmo da viagem de retorno para o norte,
para casa, nos últimos
dias tinha se tornado uma rotina de acordar, acelerar, parar e dormir.
Em média viajávamos entre 400 e 500 quilômetros por dia.
Aquele foi o momento mais monótono
da viagem, para não dizer cansativo. Não havia muitas alternativas para
passar as horas.
Não podíamos conversar um com o outro devido ao barulho do motor e do
vento. Entretanto, todo dia eu cantava as músicas que
sabia para me distrair. Depois fazia planos para quando chegasse em
Curitiba. Pensava nas matérias que teria que escrever, nas
fotos que iria publicar, nas palestras que daria.
Quando os pensamentos se esgotaram, tentei
imaginar o que os monges do Tibete estariam fazendo naquele momento,
o que
aconteceria com o planeta se começasse a girar de modo inverso
e outras coisas que mantinham minha imaginação ocupada.
Mas,
nunca pensei, nem um segundo sequer, que, naquela época - janeiro
de 1999, as contas que estava pagando com cartão de crédito
seriam cobradas em dobro no momento que voltasse, em fevereiro, para
o Brasil.
Amigos
de La Posta del Viajero en Moto
No retorno para casa, pelo ritmo
que empregávamos, lembro-me muito bem que na beira da estrada eu abri
o mapa e disse
para a Valesca "veja só, faltam apenas mil e quinhentos
quilômetros para chegarmos em Buenos Aires". Quilômetros
rodados,
passamos por Azul, uma cidade a cerca de 300 quilômetros ao sul
da capital argentina, ao centro da Província.
Com a chegada da noite, resolvemos
ficar em um camping de Azul ao longo de um belo rio. Não demorou muito
para que um
simpático argentino aparecesse para conversar com a gente. Era o Jorge
Quatrochi, membro da La Posta del Viajero en Moto, que
recebe os viajantes de motocicleta de todo o mundo que, por ventura,
decidem procurá-lo.
No seu ambiente de trabalho, ele
destinou uma sala, um local onde os viajantes motociclistas deixam suas
mensagens
pintadas nas paredes. Jorge fez questão de nos mostrar a sala e as matérias
que saíram em revistas do mundo inteiro sobre sua
maneira de fazer amigos. Valesca e eu éramos os primeiros brasileiros
que paravam por ali e que ele sentia-se honrado com isso.
Com tantos estrangeiros: alemães,
suíços, irlandeses, austríacos, neozelandeses e muitos japoneses, nenhum
brasileiro até
então tinha passado por ali, segundo Jorge. Satisfeito com a nossa presença,
quis até fazer um típico churrasco argentino em
nossa homenagem, mas como o nosso tempo não permitia e tivemos que deixar
para uma outra vez. Nossa mensagem está
pintada na parede para os próximos viajantes motociclistas que passarem
por lá. Jorge é uma pessoa bem humorada, simples e
que gosta de tratar bem os viajantes. É apaixonado por motocicleta e
adora receber amigos motociclistas do mundo inteiro que,
eventualmente, lhe mandam revistas e saudações. O endereço dele para
os viajantes motociclistas interessados é: Amigos de La
Posta del Viajero en Moto. Calle Mendoza 685, Cidade de Azul, Província
de Buenos Aires, Argentina, CEP: 7300.
A viagem de Azul até Buenos Aires não
demorou muito, foram apenas 300 quilômetros e foi com imensa alegria
que entramos
na cidade portenha. Estávamos na reta final para chegar em casa, em
Curitiba. Isso só era questão de alguns dias.
Ter partido para uma jornada de
quarenta dias sobre duas rodas por terras desconhecidas foi um dos momentos
mais felizes
de minha vida. Fez com que a adrenalina começasse a fluir e nascesse,
mais uma vez, a emoção de ser viajante.
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