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Aventura sobre duas rodas pela Patagônia

Levis Litz

40 dias e 11 mil quilômetros com uma XL-125

      A Patagônia é uma região fascinante, cheia de histórias, tradições e belezas
naturais. Viajar por aquelas terras é uma experiência única, principalmente para
quem está sobre duas rodas.

      E lá estávamos nós, Valesca, professora de História, e eu, sobre uma pequena
motocicleta Honda XL-125, seguindo para o Sul da América do Sul. Já tínhamos
aprendido em aventuras anteriores que no mundo que cerca uma viagem de
motocicleta, vale de tudo. Para superar limites é necessário muita técnica e
experiência. A coragem vem com a vontade de conhecer o novo e vivenciar aspectos
inusitados.

      Ao atravessar uma região desértica como a Patagônia, cada gota de gasolina
torna-se preciosa, principalmente quando o pequeno tanque da XL comporta o
suficiente para percorrer no máximo 230 quilômetros, e pela frente há trechos
superiores a esta quilometragem entre os postos de gasolina.

      Mas não foi a gasolina que nos deixou parados em pleno deserto. Na pequena
cidade de Sierra Grande, na Argentina, trocamos o óleo na casa de um mecânico de
carro, onde curiosamente havia um animal de estimação: filhote de guanaco (parente
da lhama peruana).

      Ao continuar a viagem, após cem quilômetros de estrada paramos para tomar a
última gota de água que tínhamos. O calor do deserto era escaldante. Nenhuma
árvore por perto, a única sombra era da motocicleta em contraste com o asfalto. De
repente, o motor perdeu a sustentação, começou a falhar e as duas rodas foram
lentamente parando de girar. Estávamos no acostamento.

      Antes de qualquer pânico, era preciso fazer uma checagem geral rápida, ficou
evidente que o problema era na bobina de energia. A princípio eu tinha pensado que
era a vela, mas depois de trocar por uma nova, não tive mais dúvidas - era a bobina.
Tudo bem, eu tinha uma de reserva.

      O problema seria a troca, teria que abrir parte do motor e isso não era possível
sob aquelas circunstâncias. Agora sim, era a hora do pânico. Entretanto, a solução
apresentou-se numa única alternativa: caminhar até o posto mais próximo. Não
deveria estar muito longe. "Estão sempre próximos às entradas e saídas das
cidades", pensei.

      Pedimos auxílio aos poucos veículos que passaram por nós, nenhum parou.
Caminhamos oito quilômetros e nada de posto. Começava a escurecer. A garganta
começou a secar por causa do ar seco do deserto. O pior era ter que empurrar a
motocicleta, com toda a bagagem, nas subidas. Até o capacete parecia pesar além
do limite.


 



          
      Valesca lembrou que tínhamos uma maçã, a qual devoramos lentamente, aproveitamos todo o suco para umedecer os lábios.
Enfim, após quatro horas de caminhada à beira da estrada e do nosso limite, chegamos ao posto, percorrendo a pé 18 quilômetros.
Mais tarde, pensamos que tivemos sorte, se considerarmos que o último ponto habitável tinha ficado para trás mais de 100
quilômetros e podíamos ter ficado bem no meio do caminho.

                                                                          O cotidiano do regresso


      Depois de ter percorrido cerca de 30 dias em direção ao sul, o ritmo da viagem de retorno para o norte, para casa, nos últimos
dias tinha se tornado uma rotina de acordar, acelerar, parar e dormir. Em média viajávamos entre 400 e 500 quilômetros por dia.

      Aquele foi o momento mais monótono da viagem, para não dizer cansativo. Não havia muitas alternativas para passar as horas.
Não podíamos conversar um com o outro devido ao barulho do motor e do vento. Entretanto, todo dia eu cantava as músicas que
sabia para me distrair. Depois fazia planos para quando chegasse em Curitiba. Pensava nas matérias que teria que escrever, nas
fotos que iria publicar, nas palestras que daria.

      Quando os pensamentos se esgotaram, tentei imaginar o que os monges do Tibete estariam fazendo naquele momento, o que
aconteceria com o planeta se começasse a girar de modo inverso e outras coisas que mantinham minha imaginação ocupada. Mas,
nunca pensei, nem um segundo sequer, que, naquela época - janeiro de 1999, as contas que estava pagando com cartão de crédito
seriam cobradas em dobro no momento que voltasse, em fevereiro, para o Brasil.

                                                            Amigos de La Posta del Viajero en Moto


      No retorno para casa, pelo ritmo que empregávamos, lembro-me muito bem que na beira da estrada eu abri o mapa e disse
para a Valesca "veja só, faltam apenas mil e quinhentos quilômetros para chegarmos em Buenos Aires". Quilômetros rodados,
passamos por Azul, uma cidade a cerca de 300 quilômetros ao sul da capital argentina, ao centro da Província.

      Com a chegada da noite, resolvemos ficar em um camping de Azul ao longo de um belo rio. Não demorou muito para que um
simpático argentino aparecesse para conversar com a gente. Era o Jorge Quatrochi, membro da La Posta del Viajero en Moto, que
recebe os viajantes de motocicleta de todo o mundo que, por ventura, decidem procurá-lo.

      No seu ambiente de trabalho, ele destinou uma sala, um local onde os viajantes motociclistas deixam suas mensagens
pintadas nas paredes. Jorge fez questão de nos mostrar a sala e as matérias que saíram em revistas do mundo inteiro sobre sua
maneira de fazer amigos. Valesca e eu éramos os primeiros brasileiros que paravam por ali e que ele sentia-se honrado com isso.

      Com tantos estrangeiros: alemães, suíços, irlandeses, austríacos, neozelandeses e muitos japoneses, nenhum brasileiro até
então tinha passado por ali, segundo Jorge. Satisfeito com a nossa presença, quis até fazer um típico churrasco argentino em
nossa homenagem, mas como o nosso tempo não permitia e tivemos que deixar para uma outra vez. Nossa mensagem está
pintada na parede para os próximos viajantes motociclistas que passarem por lá. Jorge é uma pessoa bem humorada, simples e
que gosta de tratar bem os viajantes. É apaixonado por motocicleta e adora receber amigos motociclistas do mundo inteiro que,
eventualmente, lhe mandam revistas e saudações. O endereço dele para os viajantes motociclistas interessados é: Amigos de La
Posta del Viajero en Moto. Calle Mendoza 685, Cidade de Azul, Província de Buenos Aires, Argentina, CEP: 7300.

      A viagem de Azul até Buenos Aires não demorou muito, foram apenas 300 quilômetros e foi com imensa alegria que entramos
na cidade portenha. Estávamos na reta final para chegar em casa, em Curitiba. Isso só era questão de alguns dias.

      Ter partido para uma jornada de quarenta dias sobre duas rodas por terras desconhecidas foi um dos momentos mais felizes
de minha vida. Fez com que a adrenalina começasse a fluir e nascesse, mais uma vez, a emoção de ser viajante.