Glaciar Perito Moreno
um gigante de gelo
Levis Litz
Depois da curva, um espetáculo de gelo. Surge, então, o Glaciar Perito Moreno. O ponto alto de uma viagem de 40 dias pela Patagônia e Terra do Fogo. Valesca,
Milano, um amigo italiano e eu decidimos ir juntos num microônibus para El Calafate, uma pequena cidade ao sul da Argentina. Durante a viagem, notamos que alguns
brasileiros estavam no interior do veículo. Para nossa surpresa, eram brasileiros de Curitiba: Rita, Angelo, Cris e Cléo. Não demorou muito para que a viagem
ficasse mais empolgante e alegre. Para complementar, outros três chilenos: Luigi, Pato e Jaime.
A curva dos suspiros
Partindo de El Calafate, percorremos cerca de 80 km até começarmos a subir uma estrada. "Antigamente havia passeios de helicópteros sobre o Glaciar, mas o barulho
espantou todas as aves da região. Atualmente, isso não é mais permitido e aos poucos os pássaros estão retornando", revelou Ivan, o nosso motorista que gostava de contar
histórias e que nós, atentamente, ouvíamos. "Uma das curvas a seguir é chamada de Curva do Suspiro", complementou Ivan. "Por quê?", perguntei. Não levou mais que
alguns segundos para que a resposta viesse em forma de um suspiro coletivo. Todos ficamos deslumbrados com a primeira vista, embora distante, de Perito Moreno.
O Glaciar, de longe, por coincidência, lembra um doce: o suspiro (merengue). De perto, nós é que acabamos suspirando diante de sua beleza e grandiosidade:
uma geleira de cor azul com 60 metros de altura acima do nível da água e outros 120 metros submersos. Um cenário constituído pela grande geleira, o Lago Argentino
e a vegetação verde das montanhas vizinhas.
A herança das eras glaciais da Terra
As geleiras são reminiscências das eras glaciais do nosso planeta. Um glaciar é uma enorme massa de gelo azulada que se forma lentamente por diversas camadas
de neve que, sob pressão, foram se acumulando a partir dos topos das montanhas. Ao longo de milhares de
anos esse gelo, com o enorme peso adquirido, rompe-se formando um tipo
de vale entre
as montanhas,o denominado ventisquero. O aquecimento crescente
da Terra contribui para o desaparecimento
das geleiras, que diminuem em cada pedaço que se desprende de
sua massa.
As faces do gelo
Nosso
grupo resolveu se aproximar do Glaciar. Entramos num barco e navegamos
em direção à grande muralha de gelo azul. Um
glaciar pode assumir vários matizes. O gelo glacial puro é azul, entretanto pode adquirir outras cores ao se misturar com
resíduos minerais de rochas próximas. Mesmo
em pleno verão ficar do lado de fora do barco, exposto ao vento
gelado que sopra dos Andes que podem
chegar a 60 km por hora, é desagradável e pode proporcionar
uma incômoda dor de ouvido. Mas a vontade de estar
um pouquinho mais perto da Geleira foi maior. Foi realmente compensador. Quanto
mais perto, mais detalhes podíamos ver. Não cansávamos
de admirar aquele paredão de puro gelo.No
alto, várias torres davam origem a cenários azuis de gelo:
círculos, buracos, fendas, pontas, enfim, formações
que
alimentavam a nossa imaginação. Uma adolescente ao ver
um dos picos mencionou que lembrava a cabeça de um urso.
O som do trovão
Embora
a embarcação tenha se aproximado bastante do Glaciar,
não chegava a menos de quinhentos metros de distância.
A
aventura de estar perto de um glaciar tem que ser muito cautelosa. De
tempos em tempos blocos de gelo desprendem-se
da geleira provocando um estardalhaço. Há casos de pessoas
que foram atingidas por estilhaços do gelo. O
som dos blocos que se soltam das geleiras impressiona e, ao mesmo tempo,
assusta os mais intrépidos.
O ruído parece a de um trovão sobre nossas cabeças,
entretanto é um espetáculo inesquecível que chega
a hipnotizar.
Depois, parecemos crianças, na procura incessante de alguma parte
que se rompa. A pergunta mais comum era:
"você viu aquilo?".
No
fim do passeio, para quem queria espantar o frio, era só pegar
um pedacinho do gelo de Perito Moreno,
estimado em mais de 20 mil anos, e tomar com um uísque de 12
anos. Isso sim, seria uma comemoração em alto estilo. |