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La Paz
A cidade das alturas

Texto Levis Litz

FOTOS DA BOLÍVIA

      Eu estava sozinho, tinha partido à meia-noite de Cochabamba, uma simpática cidade da Bolívia, quando de repente acordei com uma tremenda dor nas têmporas. Respirava com dificuldade e minhas pernas estavam pesadas. Olho para cima e percebo que estava num confortável ônibus. Bem ao meu lado, uma bonita jovem boliviana, baixa estatura, morena e com traços andinos. No seu colo, um garotinho dormia.
      A maioria dos passageiros, inclusive a aimará, parecia compartilhar do meu mal estar. Entretanto, não demorou muito para que o ônibus parasse para que pudéssemos respirar um pouco de ar puro. Era a conseqüência do forte efeito da altitude de mais de quatro mil metros acima do nível do mar. A boa notícia foi que faltavam poucas horas para o fim da viagem.
      Daí em diante o trajeto foi mais tranqüilo e estimulante. Havíamos tomado um chá (uma infusão de folhas de coca) fornecido pela empresa. Assim, a chegada na mais alta capital do mundo, La Paz, foi deslumbrante. O Sol estava nascendo e pudemos ver do alto de um imenso desfiladeiro um belo e curioso cenário: os acentuados contrastes das casas e construções coloniais instaladas ao longo de paredões com os modernos edifícios da cidade lá embaixo, no vale. Tudo iluminado, ao longe, pelos raios de sol refletidos pela cordilheira.
      Nosso ônibus desceu lentamente até alcançar o vale, no centro de La Paz. Estava um pouco frio, peguei minha mochila e segui até um hotel indicado por um viajante suíço que havia encontrado dias atrás em Santa Cruz de La Sierra.

                                                                  Mistérios Andinos

      Antes de seguir viagem para a ruína arqueológica de Tiahuanaco, uma das mais polêmicas do planeta, devido as controvérsias de sua origem, quis aproveitar alguns dias para passear e conhecer melhor o ritmo urbano de La Paz. Visitei alguns lugares interessantes, um deles a menos de doze quilômetros ao sul do centro, onde de um lado tem-se a visão de montanhas cobertas por vegetações coloridas com tons de verde e marrom num típico clima árido de deserto andino e de outro, encostas com formações rochosas que incitam a nossa imaginação como se fossem paisagens de um outro planeta, ou melhor, satélite - eu estava na região denominada de Vale da Lua.

      Para voltar ao centro, como não havia ônibus, resolvi pedir carona, não precisei esperar muito e lá estava eu com aquela sensação de liberdade outra vez, na traseira de um caminhão com o vento batendo no meu rosto. Ao chegar, desci do caminhão e fui agradecer o motorista. Uma surpresa: ele cobrou-me pela carona.
       Num ritmo cada vez mais intenso em conhecer uma cultura tão diferente da nossa, continuei minhas andanças pelas ruas ao redor da imponente Basílica de São Francisco, nos mercados de rua que são ótimos para comprar presentes, souvenirs, roupas (mantas e pulôveres) de alpaca, esculturas de cerâmica etc. Fiquei impressionado com a visão da Basílica de São Francisco, com sinos feitos de pedras inaugurada em 1753, em estilo "mestiço". Em frente da basílica, uma enorme escultura de pedra que representa a civilização colonial espanhola, a cultura pré-colombiana e a modernidade.
      E foi nesse clima que continuei minhas descobertas, conheci o Mercado da Feitiçaria, na Calle Sagarnaga, onde encontram-se ervas, amuletos, minerais e artesanatos para todos os gostos e cultos num país onde a medicina natural desempenha um importante papel. Curiosamente, enquanto eu conversava com a recepcionista do hotel, um marceneiro boliviano se aproximou e começou a me fazer muitas perguntas sobre a minha comunidade, como eram os líderes políticos e se o povo era amistoso. Enquanto a conversa se desenrolava, percebi que aquele homem era mais culto do que sua aparência transmitia. Quando foi a minha vez de questionar sobre as peculiaridades do povo boliviano e sua ligação com o misticismo, ele me disse que até hoje
existe, numa província boliviana, uma comunidade de kallawaias, índios curandeiros que, desde a época dos incas, percorriam sozinhos as aldeias do Império, curando os doentes mediante o uso de remédios naturais e rituais.
      Curiosidades pessoais à parte, em La Paz, ainda há muita coisa para ver, conhecer e fazer, mas o mais importante é estar em Paz com a cidade. O resto flui naturalmente.