Logo Fotos e Rumos.com
Fotos e Rumos.com

HOME |  FOTOS |  RUMOS |  MURAL |  CONTATO

Matérias e artigos assinados não refletem necessariamente a opinião de Fotos e rumos.com
 

SEBASTIÃO SALGADO

Por Enio Leite


      O objetivo deste texto opinativo não é depreciar grandes autores e suas respectivas obras e sim mostrar o que, muitas vezes,
ocorre nos bastidores, ou seja, estou apenas tentando esclarecer os fatos, sem não julgar ninguém.

      Temos nos deparado atualmente com dois tipos que merecem um paralelo: grandes fotógrafos e grandes jogadores de futebol.
Cada qual tem faturado bastante não só dentro de sua profissão, mas também através do seu marketing pessoal.

      A própria mídia capitalista age como Rei Midas, transformando tudo em mercadoria. Para ser aceito e conquistar notoriedade
pública, todos os profissionais, sem exceção, são obrigados a se vender.

      Podemos ilustrar isso com os comerciais de TV da GM, promovendo seu novo carro, e tendo como principal personagem -
conhecido fotógrafo J.R Duran.

      Grandes mestres da fotografia brasileira não tiveram a mesma sorte. Fotógrafos de grande porte como Miguel Rio Branco
e Mário Cravo Neto, excluídos da mídia brasileira, são celebridades internacionais, mas pouco conhecidos entre nós.

      O próprio Maestro e Compositor Villa Lobos, teve que ser aplaudido de pé em Paris, para que merecesse algum prestígio
nacional.

      E, mais recente ainda é a presença de Sebastião Salgado no Brasil, promovendo exposições, debates na televisão, lançando
novo livro etc...

      Sua presença é um grande evento, mobilizam a grande imprensa, a opinião pública e todos que apreciam suas obras.

      Considerado como o "Grande Messias da Fotografia", durante suas entrevistas públicas, os debatedores, que em sua maioria
não são fotógrafos, sempre se colocam bastante distanciados da obra fotográfica de Salgado, evitando-a mesmo. A impressão
que fica é a de que os entrevistadores em geral, não são especialistas em linguagem fotográfica, mas sim nos problemas sociais
(supostos e reais) que são apenas o tema do trabalho em pauta.

      Mesmo grandes mestres radicados no Brasil, como Maureen Bisiliat – que produziu excelentes estudos fotográficos sobre
as várias etnias indígenas na região Amazônia, durante a década de 60, continuam fazendo uma leitura fundamentalista da obra
fotográfica de Salgado.

      Em outras palavras: adquiriram o hábito de tomar a fotografia como substituto do real e não como fotografia; como obra
fotográfica; como construção imaginária e estética. Nesse sentido, os debatedores, sem exceção, costumam ficar muito
aquém do propósito e da importância propriamente fotográfica da obra de Salgado.

      Mas, por outro lado, o que não chega a ser propriamente uma novidade, mas sim uma surpresa. Salgado "deixou-se cair
na armadilha" desse fundamentalismo visual. Atualmente vem ele procurando se colocar mais como crítico social e não
como fotógrafo.

      Salgado sempre imprimiu nesses últimos 20 anos um discurso de legitimidade discutível, impressionista e ideológica,
que de fato tem muito pouco a ver com sua fotografia, mas sim com sua própria imagem.

      A crítica social de Salgado - como ocorre no geral com ideólogos, militantes e pessoas comuns interessadas em questões
sociais - é uma crítica de senso comum, baseada em valores e critérios medianos. Às vezes deixa de mencionar no âmbito do
seu próprio "território de legitimidade", a fotografia, no qual todos nós gostaríamos que ele sempre tivesse permanecido.

      Sua crítica social também está aquém do alcance, do significado e da dimensão propriamente artística, cultural e sociológica
de sua obra fotográfica. Isso acontece freqüentemente com especialistas de diferentes campos do conhecimento.

      Se essas breves observações são realmente um fato, podemos concluir que há grave conflito entre Salgado e sua própria obra.

      Sebastião Salgado, crítico social, tenta por meio de sua linguagem verbal, pela sua escrita e mesmo pelas suas imagens,
desconstruir sua obra fotográfica e impor uma premissa de leitura de suas fotografias, um cânone pobre em face de uma
imagem fotográfica rica. Com que propósito?

      Várias vezes ele se interpelou, em inúmeras entrevistas e debates, contra interpretações acadêmicas, e de intelectuais,
de sua fotografia, parecendo estar escondendo algo...

      Mas o próprio Sebastião Salgado, fotógrafo, esqueceu que é um intelectual. Raciocina, sente e produz, por meio de seu
potencial criativo como intelectual (foi aluno da USP, como eu e tantos outros, onde aprendeu e incorporou definitivamente
sua visão acadêmica do mundo).

      Seu trabalho fotográfico sempre foi e sempre será um trabalho de essência intelectual. Esse tipo de trabalho nunca foi
gratuito. Todo o intelectual tem a consciência de ponderar a relação custo x benefício e prever, por estatísticas e outros meios,
as repercussões de seu produto.

      A fotografia é um dos inúmeros modos de produzir conhecimento. A intuição que ele supõe ser de um fotojornalista é uma
intuição construída numa formação acadêmica e, ao contrário do que ele sempre afirma expressamente, se propõe no território
da razão e não no território da emoção. Justamente por isso é que ele precisa falar tanto sobre sua fotografia, explicar tanto o
objeto de sua obra fotográfica. É um discurso articulado, que procura dar sentido a isto e aquilo: é instrumento da razão.

      Às vezes, Sebastião Salgado cria a impressão de que sua justificativa pretende desqualificar sua fotografia, a pretexto de
completá-la. Ele quer ter o controle do conotativo, coisa impossível para qualquer artista ou mesmo para qualquer cientista
(como no clássico filme "A Rosa Púrpura do Cairo" de Woody Allen).

      A obra de Salgado não necessita de discursos e, menos ainda, das justificativas de seu autor. Ela antes de tudo, fala por
si mesma... Ela, por si só, é auto-suficiente... É coesa, objetiva, bem lapidada, esteticamente perfeita... Dispensa, aliás, tais
adjetivos ou outras atribuições.

      Dentro deste contexto, a "Gazeta Mercantil" em sua edição de 05/05/00, página 5-C,  publicou um artigo cuja manchete
é : "Sucesso faz de Sebastião Salgado uma Griffe".

      Examinando o conteúdo da notícia, é de estranhar que um mestre do porte de Sebastião Salgado continue perpetuando
a proposta de BRASIL-VERDADE, instituída logo após o milagre econômico, durante a década de 60, onde a elite mais
esclarecida, apropriava-se da fotografia para denunciar o custo que esse benefício proporcionava ao País. Ou seja, a miséria
brasileira tinha que ser documentada e denunciada a qualquer preço para que a opinião pública fosse adequadamente
informada. A extinta Revista Realidade é um dos inúmeros exemplos dessa política.

      Mas, esse tipo de militância fotográfica já apresentava graves efeitos colaterais: os fotógrafos se promoviam e eram
altamente prestigiados às custas da miséria alheia. Seus personagens, entretanto, continuavam eternamente condenados
àquela condição de vida. Nunca foram beneficiados direta ou indiretamente, e pior, não tinham sequer condições de constituir
um advogado para reivindicar eventuais direitos oriundos do uso de imagem.

      Em termos de influência, muitos relacionam o trabalho de Salgado com os de Henri Cartier-Bresson e Eugène Smith.
Com Cartier-Bresson a proximidade aponta para a composição, a relação harmônica presente entre os objetos fotografados.

      Entretanto, a principal diferença entre os dois é a temática. Se para Cartier-Bresson a miséria alheia não é importante ou
é mero dado dentro do contexto geral, para Salgado revela-se fundamental e necessária.

      Por outro lado, afirma-se também que suas fotografias seguem a tradição do fotojornalismo de Eugène Smith: do absoluto
engajamento social e político que queda expresso no trabalho e da marcante solidariedade com o fotografado. Engano!
A temática do meio ambiente mostrada por Smith traz a miséria como mero detalhe, mas nunca como a espinha dorsal;
a finalidade de seu trabalho.

      Porém, é certo que Salgado, às vezes, apresenta a rara habilidade da mistura entre o momento certo de Cartier-Bresson
e a realidade engajada de Smith. Sua proposta, na maioria da vezes, procura vende r para o mundo o lado negativo do Brasil,
como se não fosse suficiente ao Exterior as péssimas repercussões causadas recentemente pelos nossos políticos e pela
nossa própria conjuntura social e econômica.

      Os grandes mestres inspiradores de Salgado estavam apenas preocupados em desenvolver seu trabalho, sem qualquer
outro propósito ou atribuição. O próprio Bresson, apesar de sua idade, ainda teve forças para sair e fotografar o famoso
Movimento Estudantil de 68, em Paris. Beethoven, mesmo velho e surdo ainda compunha obras.

      Mozart, no final da sua vida, tuberculoso e com problemas mentais, não largava e seu piano e produziu grandes sinfonias
até o último minuto de sua vida. Para estes e muitos outros, criar sempre foi, antes de tudo, uma necessidade básica;
algo como respirar.

      Dentro deste contexto é estranho ouvir do próprio Salgado, que "pretende parar de fotografar em breve". Em resumo:
  grande mestre se mostra inclinado a perpetuar o marketing pessoal de toda celebridade brasileira.

      Se analisarmos atentamente suas premissas, sempre presentes nas entrevistas, declarações e textos de sua autoria,
parece que o idolatrado Salgado passou a vida investindo todo o seu potencial somente para este fim.

      Miséria alheia sempre foi um produto de fácil aceitação no mercado. O Trinômio: "Fome, Pobreza e Miséria" sempre
estiveram presentes nas "Mega Metrópoles" como Tóquio, Londres, Paris, Frankfurt, N. York, entre tantas outras do
Primeiro Mundo.

      O grande diretor do cinema japonês Akira Kurosava, em seu clássico filme "Dodes'k-aden" (1970), se apropriou da miséria
humana para denunciar outro tipo de miséria que atinge toda a humanidade contemporânea: o medo, a culpa, o ressentimento
e a inércia do espírito humano.

      Os quadros do pintor mexicano Siqueiros expondo os absurdos da Revolução Mexicana, valem uma fortuna no mercado de
arte, assim como Ël "Guernica" de Picasso, que por meio da estética cubista, expôs os crimes absurdos e toda a crueldade da
revolução civil espanhola.

      As classes mais privilegiadas sempre tiveram a necessidade de expor esse tipo de temática em suas paredes, quer
para aparentarem certo engajamento, quer para demonstrarem-se sensibilizados por tais estados de condição humana.

      Não devemos nunca esquecer que Fotografia comporta em si uma série de finalidades. Todos fotografam visando os mais
diversos objetivos: Registrar um momento de vida que passa, documentar um fato ou um fundamento técnico, divulgar uma
determinada visão de mundo, ou simplesmente expor um conceito; uma idéia.

      Assim, a Fotografia antes de tudo é uma linguagem; um sistema de códigos, verbais ou visuais; um instrumento visual
de comunicação. E toda a linguagem nada mais é do que um suporte que sustenta aquilo que realmente se pretende tornar
público: a mensagem -  um simples e-mail ou a obra "Guerra e Paz" de Tolstoi, em dois volumes.

      A mensagem é uma derivação de dois fatores: o conotativo e o denotativo. Qual é a diferença entre o cachorro amigo e o
amigo cachorro? Enquanto a primeira é descritiva, a segunda já atribui ao objeto um determinado valor metafórico.

      A Fotografia, ao contrário do que pensamos, não é uma cópia fiel da realidade fotografada. Isto porque a objetiva da câmera
filtra essa imagem e o filme por sua vez a distorce, alterando sua cor, luminosidade e sensação de tridimensionalidade.

      Contudo, por mais que se queira apreender a realidade em toda a sua amplitude, qualquer tentativa técnica é inútil, mesmo
porque cada um de nós a concebe de modo distinto.

      E tudo aquilo que não é real ou análogo, passa a estar a serviço das mitologias contemporâneas. Sebastião Salgado é um
ótimo exemplo disso.

      A Fotografia não apenas prolonga a visão natural como também descobre outro tipo de visão: a visão fotográfica. Esta, por
seu turno, é dotada de gramática, estética e ética próprias. Saber ler, distinguindo o detalhe do todo, pode resultar num
aprendizado sem fim e, então, aquela coisa que não tinha a menor graça para quem a observava, passa a ter vida própria,
assim como podemos observar nas fotografias de Salgado.

      A Fotografia não é realista, mas sim surrealista. Nativamente surreal.

      A subjetividade que lhe é própria pode mentir, provocar, chocar ou proporcionar prazer estético, e, também, manipular a
opinião publica em favor dos interesses do próprio fotógrafo.
      A imagem fotográfica não é, em absoluto, uma forma de arte. Como linguagem, ela é o meio pelo qual a obra de arte é
realizada. E Salgado parece saber disso desde o primeiro momento que se deparou com a fotografia.

      A Fotografia é sempre uma imagem de algo. Esta está atrelada ao referente que atesta a sua existência e todo o processo
histórico que o gerou. Ler uma fotografia implica reconstituir no tempo seu assunto, derivá-lo no passado e conjugá-lo a
um futuro virtual. Salgado, na qualidade de intelectual, conhece métodos e técnicas necessários para administrar melhor
este tipo de recurso .

      Assim, a linguagem fotográfica é essencialmente metafórica: atribui novas formas, novas cores e novos sentidos
conotativos ou denotativos; comprova que a fotografia não está limitada apenas ao seu referente. Ela o ultrapassa na medida
em que o seu tempo presente é reconstituído, que o seu passado não pode deixar de ser considerado e que o seu futuro
também estará em jogo. Ou seja, a sobrevivência de sua imagem está intimamente ligada a genialidade criativa e ao potencial
cultural e intelectual de seu autor.

      A sociedade brasileira necessita agora, antes de mais nada, apresentar soluções concretas para a melhoria efetiva de
nossa realidade. Não devemos reduzir os fatos a um único ponto, mas ampliá-los. Tais fatos são decorrência do próprio
momento histórico em que vivemos.

      Devemos ser mais ousados, propondo novas idéias e novos padrões estéticos, usufruindo ao máximo de nossa pluralidade
cultural. Somos um caldeirão de raças; de inúmeras etnias que vivem em harmonia, ao contrário do que ocorre na Índia,
China, Rússia ou mesmo na Irlanda. Temos que nos arriscar e encarar os fatos, exatamente como ocorreu na Semana
de Arte de 22 e em sua continuidade, o Movimento Tropicalista. Se olharmos em nossa volta, vamos notar de imediato,
alguém produzindo exatamente isto, em pleno anonimato.

      A coragem, a sabedoria de aguardar o momento exato para a ação e a determinação de propor novas saídas é  engrenagem
mestra das grandes transformações; a motivação e a inspiração para que a fotografia possa ser uma ferramenta de percepção
para transformar e abrir horizontes, beneficiando assim toda a humanidade.

Enio Leite, dentre seus inúmeros títulos universitários é cientista social formado pela USP durante
a Ditadura e educador.

Fone 0 xx 11 31 04 69 51.
http://www.focusfoto.com.br/
Primeira Escola Brasileira de Fotografia cadastrada na SERT/Mtb