Fotos e Rumos.com - Como surgiu a idéia de percorrer o
Meridiano 50?
Fernando Rosembaum - Escolhi esse Meridiano, porque queria pegar uma linha
imaginária do país e conhecer uma
fatia do Brasil. E o Meridiano 50 passa por Curitiba e corta o Brasil
quase no meio. Então fiz um projeto para cruzar
o Brasil do Sul ao Norte pelo Meridiano 50, chegando no Amapá.
Fotos e
Rumos.com - Como foi o seu planejamento para uma viagem como esta?
Fernando Rosembaum - Não me organizei totalmente, a certeza que
eu tinha era de que não iria passar fome
e nem morrer. Estava pronto para imprevistos menores, pois sempre ando
de bicicleta, por isso não tive nenhum
treinamento físico específico antes. Mas já o psicológico,
foi difícil e começou a pesar. Despedi dos meus amigos
uma semana antes e parti sozinho.
Fotos e
Rumos.com - Você conseguiu patrocínio?
Fernando Rosembaum - Foi o ilustrador Tako-X, um amigo meu, que me patrocinou
com R$ 50,00 e mais uma
camiseta do "Marquinho andando de bicicleta", que é
um desenho dele; a Ticcolor me patrocinou com alguns
filmes fotográficos.
Fotos e
Rumos.com - Como era a sua rotina de viagem?
Fernando Rosembaum - Pedalava cerca de 10 horas por dia a 20 km por
hora, perfazendo um total de 100 km diários.
Fazia a maior parte do trajeto de manhã e 40 km a tarde. À
noite, parava nos postos de gasolina, onde existe toda uma
infra-estrutura de banho e restaurante. Eu acordava cedinho, logo quando
o sol nascia, desmontava a barraca e tomava
um café e nos postos de gasolina sempre tem café de graça
e eu aproveitava. Pedalava metade da manhã, tomava mais
um café e pedalava até umas 11 horas, chegava no restaurante
e pedia o almoço.
Fotos e
Rumos.com - Era fácil conseguir almoço de graça?
Fernando Rosembaum - Comecei a pedir o almoço, porque eu ia no
restaurante, almoçava e na hora de pagar eu
conversava com o dono do lugar, contava a minha história e ele
falava, "nem precisa pagar". Aí no decorrer da viagem
eu fui aprendendo. Falava que estava pedalando desde Curitiba e pedia
um feijão com arroz. Tinha gente que só dava
feijão com arroz, e tinha outras pessoas que diziam, "senta
aí, come o que você quiser e não esqueça
da sobremesa".
Fotos e
Rumos.com - Por quanto tempo você ficava num mesmo lugar?
Fernando Rosembaum - Fiquei três dias em Goiânia, onde conheci
uma senhora que me recebeu muito bem. Ela tinha
todo cuidado comigo, colocava ervas para descansar os meus olhos e minhas
pernas. Preparava pão de queijo com
suco de manga, dizia para eu ficar lá descansando. E eu também
tenho uma forte ligação com as comunidades
alternativas e fui parando em Pirinópolis, São Jorge,
Brasília, Alto Paraíso...
Fotos e
Rumos.com - Qual foi a maior dificuldade no trajeto?
Fernando Rosembaum - Foi quando eu caí na Chapada dos Veadeiros
e me machuquei muito. Eram 80 km de estrada
de chão deserta. Eu tinha pouca água no cantil, ou bebia
ou limpava os ferimentos. Resolvi guardar a água para beber,
pois não sabia quando encontraria mais. Continuei a viagem, o
sol era forte, não tinha sombra. Comecei a pedalar numa
subida, estava cansado e machucado, parei do lado da estrada e ouvi
um barulhinho de água. Deixei a bicicleta num canto
da estrada, entrei no meio do mato e encontrei um riozinho que foi a
minha salvação, porque eu pude me lavar e fazer o
almoço.
Fotos e
Rumos.com - Durante o percurso, você encontrou "figuras inusitadas"
?
Fernando Rosembaum - Encontrei uma família colombiana que estava
viajando pelo Brasil em bicicletas duplas, levando
o teatro pelas cidades onde passava. Tinham também os ciclo-loucos,
alguns caras que pegam uma bicicleta Barra Forte
e saem sem destino pelo mundo. Além de um cara que comia cachorro,
mas não podia ser cachorro no cio porque a
carne ficava ruim. Mas como eu não como carne, não provei
dessa receita (risos).
Fotos e
Rumos.com - O que mais marcou você nessa aventura?
Fernando Rosembaum - São aqueles momentos em que você sofre
aperto. Quando fura um pneu, quando você cai. Mas
o que valeu de lição de vida foi perceber que no mundo
tem muitas pessoas boas. Elas gostavam de ouvir as minhas
histórias, me davam coisas como se estivessem viajando junto
comigo. Me davam colares, cartão telefônico, santinhos,
camisetas, mas como eu não podia levar muita coisa, eu dava para
outras pessoas. É uma coisa muito legal esse desapego
quando você está viajando. Você não pode carregar
tudo o que acha legal, senão vai se sobrecarregando e de repente
não consegue andar mais. Percebi muito bem que dando uma coisa
aqui, você recebe lá na frente. A maior riqueza é
a
diversidade cultural, como as pessoas fazem a comida, como falam e cuidam
da terra.
Fotos e
Rumos.com - Na volta, como foram os últimos dias antes da chegada
em Curitiba?
Fernando Rosembaum - Quando eu cheguei em Palmas, eu já não
tinha dinheiro para voltar. Fui até a TV local, pedindo
uma passagem e não consegui nada. Fui para a BR, escrevi numa
placa "quero voltar para o Sul". Fiquei esperando uma
semana num posto de gasolina. Aí consegui uma carona até
a metade do caminho. Esperei mais alguns dias num outro
posto e consegui mais uma carona até aqui, em Curitiba.
Fotos e
Rumos.com - E agora, quais são os planos para o futuro, tem algum
projeto em andamento?
Fernando Rosembaum - Tenho e estou bem animado. Tem um cara que escreveu
um livro, o Antônio Olinto , que já
deu a volta ao mundo de bicicleta em três anos. Ainda quero dar
uma dessas, num futuro próximo.
Fotos e
Rumos.com - O que você diria para quem está a fim de encarar
a estrada sob os pedais?
Fernando Rosembaum - Eu digo que tem muitas pessoas no Brasil fazendo
isso. E para viajar de bicicleta não precisa
de muito dinheiro, é só ter vontade e tempo. Porque o
preparo físico você vai ganhando no caminho, é você
quem está
fazendo o seu tempo. Pode ir devagar, parando nos lugares, pois o grande
"barato" é conhecer. |