Serra
do Rio do Rastro
Uma imensidão de curvas
Levis Litz
FOTOS
Lá
estávamos, Valesca e eu, viajando de motocicleta pelo litoral de Santa
Catarina,
numa região onde o forte é a pecuária e a produção de maçã, feijão e
batatas. O tempo
estava exuberante, o céu estava azul e o sol brilhava com toda a sua
força.
Por indicação de amigos de Itajaí, entramos
em Órleans em direção a Bom Jardim da
Serra, passando pela cidade de Lauro Muller (SC). A intenção era conhecer a famosa
Serra do Rio do
Rastro que pertence a este município. No trajeto, lembrei do que meu cunhado gaúcho "exageradamente"
havia me dito: "essa serra é tão tortuosa que , ao se fazer uma curva de carro, quase
se enxerga a placa
de trás". Absorto em meus pensamentos, não demorei muito em perceber
as paisagens
que foram surgindo diante da viseira do meu capacete. Os tons fortes
do verde da vegetação
local já começavam a se destacar.
As Esculturas do Diabo
Ao chegarmos em Órleans, uma pitoresca
cidade, paramos para perguntar a alguns
senhores sentados num bar, onde ficava o paredão com as esculturas do
Zé do Diabo. Sem
demora, estávamos no pé das esculturas que foram feitas num paredão
à beira de uma
estrada próxima a um rio. Paramos e fotografamos. As esculturas são
registros de cenas
bíblicas entalhadas na própria rocha. Interessantes, mas mal preservadas,
sem infra-estrutura. O local tem apenas um "quiosque" abandonado.
Sem perda de tempo, seguimos adiante
para outro lado da cidade, para visitar o "Museu
ao Ar Livre - Engenhos do Passado", onde mantém-se a memória da imigração
local, que
preserva uma série de unidades antigas - casa do colono, cantina do
vinho, açude e balsa,
entre outros - utilizadas por colonizadores, principalmente por italianos.
Depois da visita e
um rápido lanche debaixo das sombras das árvores, partimos para a cidade
de Lauro Muller.
Antes mesmo de chegar ao topo, tínhamos uma bela visão do alto da serra,
formada por um
paredão enorme, verde escuro, estendendo-se no horizonte de Norte a
Sul.
Subindo a Serra
À medida que subíamos seus doze quilômetros,
o paredão rochoso ficava maior, mais
impressionante e imponente. Certamente, o melhor lugar nesta viagem ficou para a Valesca, que, como passageira, podia apreciar
o cenário, sem ter que prestar muita atenção na pista. A estrada, com sua linhas tortuosas, é muito linda. Sempre acompanhada
de um lado por uma vegetação densa e exuberante com paredões íngremes e do outro, a visão, lá embaixo, de um rio pedregoso e
de água transparente.
No início do século os tropeiros da serra levavam dias viajando no lombo de burros, por este percurso, para chegar ao litoral.
Hoje, bem sinalizada, asfaltada e segura, é fácil percorrê-la em menos de meia hora. No nosso caso, levamos quase duas horas
para subir a serra. Demoramos mais porque parávamos constantemente nos "refúgios" para apreciar os desfiladeiros, tirar
fotografias e ficar observando as manobras dos caminhões vencendo lentamente a subida, redesenhando continuamente o relevo
do Planalto Catarinense, como se fosse um rastro de uma serpente. Embora eu não tenha visto a minha placa traseira, a
sucessão de curvas sinuosas eram, de fato, muito fechadas e exigia muita concentração. Era um bom teste de habilidade. Apenas
o ruído do motor quebrava o silêncio daquelas alturas.
A Serra do Rio do Rastro é, indiscutivelmente, um espetáculo durante o dia, entretanto à noite, quem impera é a imaginação.
Os desfiladeiros, sem a luz do sol, tornam-se marcantes. As falhas dos paredões ao serem "tocadas" pelas luzes dos faróis
produzem efeitos sinistros que vão além da imaginação. A luz do dia, em dias bem claros, a 1.460 metros de altitude, é possível,
do alto da serra, ver o litoral. Quando alcançamos o topo, ao término das curvas, o tempo ficou frio e úmido. Uma neblina tinha
baixado limitando bastante nossa visão. Resolvemos assim, dar meia volta e retornar pelo mesmo caminho, só que desta vez,
serra abaixo. Depois que descemos a serra, fomos margeando o Rio Tubarão pelo lado direito, passando pelas estâncias
hidrotermais de Termas da Guarda e do Rio do Pouso, em Tubarão, até que finalmente, ao entardecer, molhamos os pés naságuas da Praia de Garopaba - um lugar encantador para descansar após um passeio pelos rastros da Serra. |